{"id":96,"date":"2016-12-15T12:39:16","date_gmt":"2016-12-15T12:39:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/?p=96"},"modified":"2016-12-15T12:39:16","modified_gmt":"2016-12-15T12:39:16","slug":"acusado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/archives\/96","title":{"rendered":"Acusado"},"content":{"rendered":"<p>Era sangue que escorria da ferida aberta acidentalmente na ponta do meu dedo indicador direito. Para olh\u00e1-la, tinha que apontar para mim pr\u00f3prio, tinha que me sentir acusado e acusador numa s\u00f3 pessoa.<\/p>\n<p>Depois era aquela sensa\u00e7\u00e3o de suc\u00e7\u00e3o, aquele turbilh\u00e3o. Estava no meio do mar e vinha uma onda bater-me no meio do peito, derrubando-me com for\u00e7a, fazendo-me perder o sentido de cima e baixo, de direita e de esquerda, de centro e de equil\u00edbrio, com a \u00e1gua a entrar pelas minhas vias respirat\u00f3rias dentro, deixando o ar de fora; era o sabor do mar, do sal na minha boca e no meu nariz e nos meus olhos em chamas e era o frio que me penetrava fisicamente para me fazer perder a consci\u00eancia! Mas afinal a onda recuava j\u00e1, eu estava a salvo, podia finalmente inalar e sentir o oxig\u00e9nio a vivificar-me&#8230;! Estava de gatas, a procurar controlar a respira\u00e7\u00e3o, pensando: \u00ab\u00c9 preciso ter azar! Ainda n\u00e3o foi desta&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>Ou ent\u00e3o era um \u00f3rf\u00e3o numa terra distante, agarrado ao corpo moribundo da minha m\u00e3e, a chorar &#8211; n\u00e3o!, a suplicar &#8211; por comida, por comida que ela n\u00e3o podia dar. Eu s\u00f3 conseguia sentir o medo dela, a dor que os meus ossos provocavam ao ro\u00e7ar contra a minha pele: sim, que tudo o resto j\u00e1 tinha sido consumido pelo meu corpo, esse canibal autof\u00e1gico que me queria matar. S\u00f3 que nem o meu choro acordava a minha m\u00e3e do seu afinal descanso eterno, nem me matavam a fome e a sede as l\u00e1grimas que eu voltava a engolir. Era realmente uma infelicidade que eu n\u00e3o tivesse j\u00e1 for\u00e7a suficiente para retalhar, cozinhar e comer aquele corpo, que afinal s\u00f3 estava exangue.<\/p>\n<p>Aquela pequena gota de sangue apontava para mim, como se eu tivesse culpa de todo o sangue que corria nesse preciso momento da ferida fatal de algu\u00e9m, ou do ventre de todas as mulheres menstruadas. Enojei-me comigo mesmo por ter carne e ser mat\u00e9ria pronta a decompor. E a acusa\u00e7\u00e3o mantinha-se.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Data original: 25\/1\/2005<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era sangue que escorria da ferida aberta acidentalmente na ponta do meu dedo indicador direito. Para olh\u00e1-la, tinha que apontar para mim pr\u00f3prio, tinha que me sentir acusado e acusador numa s\u00f3 pessoa. Depois era aquela sensa\u00e7\u00e3o de suc\u00e7\u00e3o, aquele turbilh\u00e3o. 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