{"id":94,"date":"2016-12-10T01:29:22","date_gmt":"2016-12-10T01:29:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/?p=94"},"modified":"2016-12-10T01:29:22","modified_gmt":"2016-12-10T01:29:22","slug":"vinte-e-quatro-horas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/archives\/94","title":{"rendered":"Vinte e quatro horas"},"content":{"rendered":"<p>Era interessante se l\u00e1 fora n\u00e3o estivesse a chover. Mas est\u00e1. A chuva cai nas folhas j\u00e1 ensopadas e eu n\u00e3o consigo encontrar uma linha na p\u00e1gina pautada que tenho na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Penso apenas: &#8220;ainda bem que n\u00e3o sou um caracol, que n\u00e3o tenho a sua lentid\u00e3o, ou morreria de stress prematuramente!&#8221; Depois encontro algu\u00e9m a correr a alta velocidade, ou num carro desportivo topo de gama e desejo ser um caracol, para poder ter mais alguma velocidade.<br \/>\n\u00c9 claro que tamb\u00e9m odiava ser aquela minhoca que rasteja por debaixo do solo, cega, engolindo os pequenos minerais que lhe chegam ao seu tracto digestivo &#8211; coitada, n\u00e3o pode nem contemplar a luz do Sol. Depois quando saio \u00e0 rua e o Sol me faz doer os olhos, desejo poder enterrar-me nas profundezas dos abismos da Terra para n\u00e3o ter de suportar aquela dor.<\/p>\n<p>P\u00e1ra de chover entretanto, mas o vento ainda sopra e eu olho a p\u00e9tala que cai docemente no pavimento alcatroado, para de seguida um carro lhe passar por cima, deixando nela uma impress\u00e3o de pneu. Sinto-me horrivelmente esmagado por este acto de insana loucura e sadismo e apetece-me vazar os olhos ao condutor por ter prostitu\u00eddo a beleza&#8230; N\u00e3o &#8211; nem foi prostitui\u00e7\u00e3o, que essa envolve pagamento e neste caso apenas houve&#8230; viola\u00e7\u00e3o! Foi o condutor que rasgou o interior do pr\u00f3prio conceito de beleza, que o esmagou debaixo de si! (Vi, no dia seguinte, que afinal era uma mulher quem conduzia o carro \u00e0quela hora, todos os dias&#8230; A agridoce ironia quase me fazia chorar.)<\/p>\n<p>Ou\u00e7o finalmente o tiquetaque do rel\u00f3gio. \u00c9 velho, de parede, dos antigos. Cada badalada a meio da noite \u00e9 um tiro de ca\u00e7adeira nos meus miolos, e o meu quarto fica ent\u00e3o regado com sangue, neur\u00f3nios, c\u00e9lulas de glia, neurotransmissores, peda\u00e7os de osso e pele e uma vida que foi outrora&#8230; S\u00f3 quando o despertador toca \u00e9 que tudo volta ao s\u00edtio: a carne, o osso e a pele reconstroem-se por magia e eu fico sem saber se o rel\u00f3gio me matou com um tiro de ca\u00e7adeira. \u00c9 claro que, uma hora depois, ao chegar \u00e0 escola, bastam dez minutos para desejar que o pesadelo que se repete todas as noites tivesse sido real.<\/p>\n<p>S\u00e3o 22:30, diz o meu rel\u00f3gio de pulso digital. \u00abPorra!\u00bb, exclamo. \u00c9 da fadiga, claro. S\u00f3 pode ser. Mas a verdade \u00e9 que n\u00e3o me fa\u00e7o rogado. Toco-me. Venho-me. Limpo-me. N\u00e3o adorme\u00e7o. Reviro-me na cama e s\u00f3 sei pensar: \u00abPorra. Porra&#8230; porra, porra porraporraporraporra!\u00bb Pergunto-me pela porra do significado da porra da palavra &#8220;porra&#8221;&#8230; Porra, n\u00e3o o sei! E o dicion\u00e1rio est\u00e1 a mais de dez cent\u00edmetros de mim, portanto que se lixe o dicion\u00e1rio e mais a porra da palavra que uso sem saber exactamente &#8211; porra!, quero eu dizer &#8220;minimamente&#8221; &#8211; o que significa.<\/p>\n<p>Foram vinte e quatro horas &#8211; daqui a nada ser\u00e3o os meus miolos novamente espalhados na parede &#8211; e nada se fez realmente. Penso no vento, que todos cre\u00eam que &#8220;passa&#8221; e que n\u00e3o faz nada: \u00abos est\u00fapidos e ignorantes que inventaram essa met\u00e1fora deviam estar a dormir! Levem l\u00e1 com um furac\u00e3o nos cornos e vejam se por acaso o vento n\u00e3o faz nada, \u00f3 espertinhos!\u00bb Depois choro. N\u00e3o me reconhe\u00e7o nestas barbaridades todas. N\u00e3o era assim que eu era antes de me virem derrubar do poleiro inst\u00e1vel onde mantive a minha mente intacta durante tanto tempo. Cresci tanto que me esqueci de como \u00e9 que se usavam os olhos para olhar para baixo, o que me levou a engordar, a encher, a insuflar como um bal\u00e3o&#8230; mas de chumbo, de pirite, de estrume infecto e ran\u00e7oso.<\/p>\n<p>Continuo sem conseguir encontrar uma linha numa p\u00e1gina pautada. S\u00f3 vejo tra\u00e7os irregulares gravados no papel e penso se n\u00e3o ser\u00e1 isso a que chamam linha. O problema \u00e9 que para mim uma linha conduz a alguma coisa, nem que seja ao infinito, enquanto que estas, ao chegarem ao fim da p\u00e1gina, se precipitam no nada. E do nada j\u00e1 eu estou farto. Pego na caneta e desenho o s\u00edmbolo de infinito, irregularmente. \u00abA\u00ed est\u00e1 uma linha decente, \u00f3 idiotas!\u00bb, exclamo em voz alta. S\u00f3 depois \u00e9 que vejo que perdi o princ\u00edpio e que por causa disso vou perder o fim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Original: 24 de Janeiro de 2005<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era interessante se l\u00e1 fora n\u00e3o estivesse a chover. Mas est\u00e1. A chuva cai nas folhas j\u00e1 ensopadas e eu n\u00e3o consigo encontrar uma linha na p\u00e1gina pautada que tenho na m\u00e3o. Penso apenas: &#8220;ainda bem que n\u00e3o sou um caracol, que n\u00e3o tenho a sua lentid\u00e3o, ou morreria de stress prematuramente!&#8221; Depois encontro algu\u00e9m [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[88,8],"tags":[89,90],"class_list":["post-94","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ficcao","category-posts-em-portuges","tag-ficcao","tag-prosa"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p5CI4b-1w","jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=94"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":95,"href":"https:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/94\/revisions\/95"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=94"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=94"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=94"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}