{"id":87,"date":"2016-10-23T03:07:05","date_gmt":"2016-10-23T02:07:05","guid":{"rendered":"http:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/?p=87"},"modified":"2016-10-23T03:07:05","modified_gmt":"2016-10-23T02:07:05","slug":"vamos-falar-da-academia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/archives\/87","title":{"rendered":"Vamos falar da &#8216;Academia&#8217;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/-JdqWqaChBuw\/VY4trD-xy8I\/AAAAAAAAcWU\/Sutq7vzgpqE\/s1600\/picture12.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium\" src=\"http:\/\/3.bp.blogspot.com\/-JdqWqaChBuw\/VY4trD-xy8I\/AAAAAAAAcWU\/Sutq7vzgpqE\/s1600\/picture12.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" \/><\/a><\/p>\n<p>Cinco anos.<\/p>\n<p>Eu tinha cinco anos quando entrei para a escola prim\u00e1ria.<\/p>\n<p>Doze anos (lectivos) depois, entrei na Universidade. Mais tr\u00eas anos lectivos, e tinha uma licenciatura. Mas n\u00e3o s\u00f3: tamb\u00e9m falta de dinheiro para prosseguir estudos. Um ano (lectivo e n\u00e3o-lectivo) a trabalhar como bolseiro de investiga\u00e7\u00e3o e, logo a seguir, Mestrado \u00a0[quem diz &#8220;logo a seguir&#8221;, diz &#8220;ao mesmo tempo&#8221;]. Dois anos lectivos (porque entretanto estava com estatuto de trabalhador-estudante). Ainda o Mestrado n\u00e3o tinha oficialmente acabado e j\u00e1 eu estava no Doutoramento. Um ano lectivo de aulas, e seriam mais tr\u00eas de investiga\u00e7\u00e3o e tese, mas que acabaram por virar cerca de quatro.<\/p>\n<p>Tenho 29 anos. Desses,\u00a0<em>vinte e dois<\/em>\u00a0s\u00e3o medidos\u00a0em &#8220;anos lectivos&#8221;. \u00c9-me mesmo mais f\u00e1cil pensar em anos lectivos do que em anos legais.<\/p>\n<p>Estou muito longe de ser um investigador &#8220;experiente&#8221;. Estou muito longe de ser um &#8216;acad\u00e9mico&#8217; &#8220;experiente&#8221;. Estou muito longe de ser um docente &#8220;experiente&#8221;. Mas h\u00e1 uma coisa que desde cedo me foi incutida por v\u00e1rias pessoas, mais experientes do que eu, neste mundo da investiga\u00e7\u00e3o, da Universidade, e que outras experi\u00eancias minhas de activismo refor\u00e7aram: \u00e9 preciso ouvir\u00a0<em>os sil\u00eancios<\/em>, os interst\u00edcios nos discursos, as pausas que cortam o que se diz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nesse sentido, h\u00e1 aqui, nesta nossa academia, um sil\u00eancio ensurdecedor. Eu consigo literalmente morrer esmagado em livros sobre metodologias de investiga\u00e7\u00e3o, e muitos deles t\u00eam frases, algures (a medo), sobre como a investiga\u00e7\u00e3o pode ser um processo &#8220;solit\u00e1rio&#8221;. Sobre como a investiga\u00e7\u00e3o nos pode levar a focarmo-nos demasiado num detalhe espec\u00edfico, e perdermos a vis\u00e3o de conjunto. E h\u00e1, claro, infinitas variantes de <a href=\"http:\/\/www.phdcomics.com\">humor<\/a> e de <a href=\"http:\/\/www.universityaffairs.ca\/news\/news-article\/the-mcgill-prof-behind-shit-academics-say\/\">humor-transformado-em-investiga\u00e7\u00e3o<\/a>. Tamb\u00e9m bastante falado, especialmente nos \u00faltimos anos, \u00e9 o avan\u00e7o da neoliberaliza\u00e7\u00e3o da academia, com as m\u00e9tricas quantitativas, os sal\u00e1rios abaixo do custo de vida, as condi\u00e7\u00f5es laborais prec\u00e1rias, o ciclo de bolsa-em-bolsa. Por fim, n\u00e3o \u00e9 preciso sequer sair de casa para ler\/ouvir cr\u00edticas &#8220;\u00e0 academia&#8221; de quem l\u00e1 n\u00e3o est\u00e1, ou l\u00e1 nunca esteve, (ou seja, de quem tem um olhar cr\u00edtico &#8211; algo fundamental &#8211; mas que n\u00e3o procurou conhecer em profundidade o objecto da sua cr\u00edtica &#8211; algo perigos\u00edssimo; n\u00e3o \u00e9 preciso fazer parte da estrutura acad\u00e9mica para a criticar, mas qualquer cr\u00edtica efectiva deve ir ao fundo das quest\u00f5es se as quer mudar).<\/p>\n<p>Mesmo assim, mesmo com isto tudo, continua a haver um\u00a0<em>sil\u00eancio ensurdecedor<\/em>. E sabem o que \u00e9 mais engra\u00e7ado? Esse sil\u00eancio \u00e9 ensurdecedor porque eu n\u00e3o consigo falar com outras pessoas do meu meio profissional sem encontrar experi\u00eancias semelhantes \u00e0 minha mas, ao mesmo tempo, com toda esta gente convencida que s\u00f3 elas passaram por isso. Ent\u00e3o, quando eu digo que quero falar da &#8216;Academia&#8217;, neste caso, n\u00e3o tem que ver com falar de qualquer um dos pontos acima.<\/p>\n<p>Bem, mentira. At\u00e9 tem. Aquilo que eu quero dizer est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o directa com tudo isso &#8211; com a precariza\u00e7\u00e3o, com a neoliberaliza\u00e7\u00e3o, com transforma\u00e7\u00f5es sociais mais largas. Mas n\u00e3o \u00e9 esse o\u00a0<em>\u00e2ngulo<\/em> que aqui me move.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Ent\u00e3o, vamos falar da &#8216;Academia&#8217;.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vamos falar de como, em Portugal, <a href=\"http:\/\/www.jn.pt\/nacional\/interior\/mais-de-60-dos-professores-universitarios-sofrem-de-burnout-5373765.html\">mais de 60% dxs professorxs universit\u00e1rixs sofrem de\u00a0<em>burnout<\/em><\/a> (dir-se-ia, um termo\u00a0<em>fancy<\/em> para falar de depress\u00e3o).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vamos falar de como uma conversa em torno da sa\u00fade mental na &#8216;Academia&#8217; <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/higher-education-network\/2014\/mar\/06\/mental-health-academics-growing-problem-pressure-university\">j\u00e1 come\u00e7ou &#8220;l\u00e1 fora&#8221;<\/a>, mas nunca chegou c\u00e1, apesar de ser um problema transversal, internacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vamos falar das horas de trabalho invis\u00edvel, administrativo, burocr\u00e1tico, indispens\u00e1vel para fazer as institui\u00e7\u00f5es funcionar, mas que n\u00e3o conta como trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vamos falar do trabalho emocional envolvido, t\u00e3o <a href=\"http:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/abs\/10.1080\/03075079.2014.914919\">profundamente genderizado e classista<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vamos falar dos prazos arbitr\u00e1rios para esta-ou-aquela coisa; trinta dias para submeter o papel X, mas ao telefone dizem &#8220;ah, n\u00e3o se preocupe se se atrasar mais umas duas ou tr\u00eas semanas&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vamos falar da complexidade de negociar rela\u00e7\u00f5es pessoais e profissionais com orientadorxs, com colegas, com chefes, com gestorxs de projecto, com investigadorxs principais. (N\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 coisa de &#8220;personalidades&#8221;. N\u00e3o \u00e9 coisa de &#8220;casos pontuais&#8221;. N\u00e3o \u00e9 isso. S\u00e3o estruturas de poder, lugares que as pessoas ocupam e s\u00e3o feitas ocupar.)<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vamos falar daquela sensa\u00e7\u00e3o absolutamente devoradora, de nos levantarmos da cama, para nos sentarmos em frente ao computador, e ficarmos felizes se, doze horas depois, conseguimos escrever meia d\u00fazia de p\u00e1ginas naquela tese, ou naquele\u00a0<em>paper<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Agora vamos falar disso repetido por uma semana. Um m\u00eas. Um ano. Dois anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vamos falar do desligamento, da obsess\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vamos falar de como esta ou aquela tese, este ou aquele relat\u00f3rio, pode dar cabo da nossa vida social. Ou pode n\u00e3o dar cabo da nossa vida social, mas dar cabo da nossa vontade de ter vida social &#8211; o que vai dar no mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vamos falar de como esta\u00a0<em>performance<\/em> de acad\u00e9micx suga a vida e a energia de quem est\u00e1 \u00e0 nossa volta, e nos faz esticar as redes de suporte at\u00e9 ao m\u00e1ximo &#8211; e \u00e0s vezes para al\u00e9m do m\u00e1ximo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vamos falar sobre o facto de n\u00e3o aparecer, em lado nenhum de uma candidatura a um doutoramento, o item &#8220;redes de suporte social e familiar extra-resistentes, com cobertura em kevlar&#8221;. Ou de como ter um trabalho e fazer um doutoramento ro\u00e7a a fantasia.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vamos falar sobre como isto tudo quer, na verdade, dizer que \u00e9 necess\u00e1rio um privil\u00e9gio enorme para conseguir de facto terminar esta coisa a que se chama &#8220;doutoramento&#8221;. Que isso \u00e9 anti-democr\u00e1tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vamos falar sobre como estas\u00a0<em>performances<\/em> de academia funcionam, na pr\u00e1tica, como uma esp\u00e9cie de vers\u00e3o retorcida das Provas de H\u00e9rcules &#8211; temos que ser a boa pessoa acad\u00e9mica,\u00a0<em>sobrevivendo<\/em> \u00e0 experi\u00eancia, e n\u00e3o produzindo conhecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vamos falar de como, para tantas pessoas que conhe\u00e7o (e para mim), esta experi\u00eancia nos drena, nos esvazia, nos desespera.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vamos falar da culpa. Vamos por-amor-de-l\u00facifer falar da\u00a0<em>culpa<\/em>. Da culpa crist\u00e3, ou coisa que o valha. Porque estamos a comer, mas pod\u00edamos estar a escrever. Porque estamos a tomar banho, mas pod\u00edamos estar a ler. Porque estamos a ir ver um filme ao cinema, mas pod\u00edamos estar a rever. Porque estamos a ler um livro de fic\u00e7\u00e3o, mas pod\u00edamos estar a analisar mais aqueles dados. Fazer mais aquele gr\u00e1fico. Codificar mais aquelas respostas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vamos falar da defesa p\u00fablica da tese. Vamos falar da adrenalina, da euforia, do nervosismo. Mas vamos\u00a0<em>ainda mais<\/em> falar do vazio. Do nada. De quando o pico de adrenalina passa, e de quando o jantar de comemora\u00e7\u00e3o passa, e de quando olhamos \u00e0 nossa volta e pensamos&#8230; &#8220;Ent\u00e3o&#8230; \u00e9 isto?&#8230; Tr\u00eas\/Quatro\/Cinco anos&#8230; \u00e9 isto? Estas duas horas?&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vamos falar de como chegamos a demorar meses s\u00f3 a conseguir arrumar as coisas que reunimos para aquela tese \/ aquele projecto \/ aquele relat\u00f3rio. Da rela\u00e7\u00e3o de amor-\u00f3dio que temos com aquelas coisas, de as vermos todos os dias e sentirmos uma onda de impot\u00eancia gigante, como se aqueles livros e aquelas fotoc\u00f3pias pesassem toneladas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vamos falar do vazio que se instala depois. V\u00e1rias pessoas conhe\u00e7o que demoraram um ano ou mais a sentirem-se elas mesmas de novo. Como se alguma coisa se tivesse avariado no processo, e fosse preciso curar. Uma mutila\u00e7\u00e3o mental tempor\u00e1ria, aos poucos e poucos restabelecida &#8211; mas com a cicatriz sempre l\u00e1, com o tecido sempre um pouco mais fr\u00e1gil.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vamos falar sobre como n\u00e3o \u00e9 suposto falar disto, porque falar disto \u00e9 falar da Loucura, e falar da Loucura amea\u00e7a a\u00a0<em>performance<\/em> de racionalidade suprema da academia.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vamos falar de ter medo de falar destas coisas com a pessoa &#8216;errada&#8217;, porque podemos parecer menos confi\u00e1veis, e portanto cair em dem\u00e9rito.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vamos falar do trabalho que d\u00e1 manter uma\u00a0<em>performance<\/em> de execu\u00e7\u00e3o, de realiza\u00e7\u00e3o pessoal e profissional de topo, num ritmo fren\u00e9tico, e onde (n\u00e3o sem alguma ironia, dada a conota\u00e7\u00e3o da express\u00e3o &#8220;trabalho intelectual&#8221;) a melhor met\u00e1fora parece ser a do Chaplin em\u00a0<em>Tempos Modernos<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vamos falar da absurda distin\u00e7\u00e3o entre &#8220;trabalho f\u00edsico&#8221; e &#8220;trabalho intelectual&#8221;. Da \u00faltima vez que verifiquei, ainda tinha o c\u00e9rebro dentro do corpo, e ainda dependia do resto do corpo para o fazer trabalhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vamos falar, por fim, destes sil\u00eancios. De como eles se promovem, n\u00e3o por uma qualquer conspira\u00e7\u00e3o vinda de cima, desta ou daquela estrutura e institui\u00e7\u00e3o, mas das pr\u00e1ticas quotidianas, interpessoais, das disciplinas que interiorizamos junto com as cita\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis desta ou daquela sumidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Sim. Claro. #NotAllAcademics<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Mas 60% \u00e9 muito. \u00c9 demais. N\u00e3o \u00e9 por acaso. N\u00e3o \u00e9 situacional. \u00c9 estrutural.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vamos falar?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cinco anos. Eu tinha cinco anos quando entrei para a escola prim\u00e1ria. Doze anos (lectivos) depois, entrei na Universidade. 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