{"id":78,"date":"2016-02-11T18:27:42","date_gmt":"2016-02-11T18:27:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/?p=78"},"modified":"2016-02-11T23:56:48","modified_gmt":"2016-02-11T23:56:48","slug":"cidadania-da-intimidade-dicas-para-jornalistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/archives\/78","title":{"rendered":"Cidadania da Intimidade &#8211; Dicas para Jornalistas"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/x103042531.jpg\" rel=\"attachment wp-att-79\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-79\" src=\"https:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/x103042531.jpg\" alt=\"x10304253[1]\" width=\"159\" height=\"170\" \/><\/a>Foi em 2009 que apareci pela primeira vez na televis\u00e3o nacional a falar de poliamor &#8211; na RTP, no programa\u00a0<em>Sete Palmos de Testa<\/em>. Inexperi\u00eancia \u00e0 parte, diria que a minha participa\u00e7\u00e3o correu bem e foi positiva. (Pequena nota hist\u00f3rica: as apari\u00e7\u00f5es de poliamor na imprensa portuguesa come\u00e7aram\u00a0<em>anos<\/em> antes de eu sequer saber que &#8220;poliamor&#8221; existia, por outras pessoas, que por v\u00e1rias raz\u00f5es entretanto se afastaram das participa\u00e7\u00f5es junto dos\u00a0<em>media<\/em>.)<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, e mesmo entretanto tendo eu resolvido fazer um hiato quase total de apari\u00e7\u00f5es nos\u00a0<em>media<\/em> relacionadas com n\u00e3o-monogamias, j\u00e1 recebi directamente ou me pediram para retransmitir\u00a0<em>dezenas<\/em> de pedidos de participa\u00e7\u00e3o em reportagens, programas e afins. Invariavelmente (e o excesso da minha presen\u00e7a nos\u00a0<em>media<\/em> a falar sobre poliamor deve-se a isso, e nada mais) xs jornalistas que me contactam acabam a expressar alguma frustra\u00e7\u00e3o por n\u00e3o terem ningu\u00e9m, ou quase ningu\u00e9m, a ir ter com elxs para uma entrevista, fotografias, ou outras formas de participa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse sentido, e porque acho importante a visibilidade nos\u00a0<em>media<\/em>, mas tamb\u00e9m acho importante a exist\u00eancia de um jornalismo socialmente respons\u00e1vel e cr\u00edtico, gostaria de\u00a0<strong>iniciar uma conversa<\/strong> sobre poss\u00edveis raz\u00f5es por detr\u00e1s deste afastamento, e deixar dicas que poder\u00e3o, creio, beneficiar tanto activistas como jornalistas. Estas dicas surgem muito a partir da minha experi\u00eancia pessoal, que \u00e9 tripla: como pessoa com forma\u00e7\u00e3o em jornalismo, como professor de pessoas que querem trabalhar em jornalismo, e como pessoa frequentemente entrevistada por jornalistas. Estas dicas s\u00e3o feitas com jornalistas em mente enquanto p\u00fablico-alvo, e s\u00e3o tamb\u00e9m pensadas como sugest\u00f5es \u00fateis, e n\u00e3o apenas cr\u00edticas de &#8220;mau jornalismo&#8221;. (Para quem quiser dicas sobre como falar\u00a0<em>com os media<\/em>, tem <a href=\"http:\/\/www.lovemore.com\/mediareact\/doing-a-media-interview-tempted-make-sure-its-not-poly-in-garbage-out\/\" target=\"_blank\">aqui um excelente resumo<\/a>, em ingl\u00eas.) Quem quiser enviar mais sugest\u00f5es, cr\u00edticas ou correc\u00e7\u00f5es, poder\u00e1 faz\u00ea-lo para danielscardoso [at] gmail [.] com<\/p>\n<p>Em virtude da liga\u00e7\u00e3o entre este\u00a0<em>post<\/em> e a minha experi\u00eancia pessoal, a maioria dos exemplos revolve em torno das n\u00e3o-monogamias. No entanto, creio que v\u00e1rias das al\u00edneas podem ser adaptadas para quest\u00f5es LGBTQIA+\/<a href=\"http:\/\/www.urbandictionary.com\/define.php?term=MOGAI\" target=\"_blank\">MOGAI<\/a>, sobre racismo, sobre discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00e9nero, entre outros elementos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li><strong>Ter consci\u00eancia do impacto<\/strong> &#8211; Come\u00e7o por aqui, porque este elemento est\u00e1 aqu\u00e9m do pr\u00f3prio processo de iniciar a entrevista. Quando algu\u00e9m pede a uma pessoa de uma minoria para dar a cara (ainda que sob anonimato) sobre a sua vida e sobre aquilo que ela vive, <em>n\u00e3o est\u00e1 a pedir uma entrevista<\/em>. Est\u00e1 a pedir um momento de risco que pode ser m\u00faltiplo: identifica\u00e7\u00e3o ou\u00a0<em>coming out<\/em> for\u00e7ado junto do trabalho, junto da fam\u00edlia, junto de amigxs, junto de vizinhxs &#8211; e consequentes problemas sociais com maior ou menor gravidade &#8211; s\u00e3o riscos reais que qualquer pessoa nestas circunst\u00e2ncias\u00a0<em>tem<\/em> que equacionar, antes sequer de pensar se vai ou n\u00e3o responder ao pedido de entrevista. E algumas pessoas, muitas at\u00e9, n\u00e3o est\u00e3o sequer em condi\u00e7\u00f5es socioecon\u00f3micas de arriscar essa poss\u00edvel exposi\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, v\u00e1rios s\u00e3o os pedidos de entrevista que me chegam (para divulga\u00e7\u00e3o por entre o grupo PolyPortugal) onde o t\u00f3pico do anonimato n\u00e3o \u00e9 sequer mencionado; isto deixa as pessoas &#8220;de p\u00e9 atr\u00e1s&#8221;, porque aumenta a suspeita de que o pedido feito n\u00e3o mostra ter, por detr\u00e1s, uma reflex\u00e3o sobre o que se quer fazer. Al\u00e9m disso, e para al\u00e9m da quest\u00e3o do anonimato, qualquer pessoa que v\u00e1 ser entrevistada sobre este tipo de temas vai\u00a0<em>de certeza absoluta<\/em> ser alvo de ataques de discurso de \u00f3dio em redes sociais, junto dos pr\u00f3prios meios de comunica\u00e7\u00e3o que divulgam as not\u00edcias, e geralmente sem qualquer controlo editorial sobre o que \u00e9 postado. Quem pede uma entrevista, est\u00e1 a pedir que a pessoa se exponha, e est\u00e1 a pedir que a pessoa lide com esse mesmo discurso de \u00f3dio. Isto \u00e9 v\u00e1lido mesmo para quem activamente procure n\u00e3o ir ler esses coment\u00e1rios. E n\u00e3o, nem quero sequer dar abertura \u00e0 ideia de que &#8220;quem se exp\u00f5e tem que saber lidar com isso&#8221;, uma vez que n\u00e3o vejo nesse argumento mais do que uma cultura de desresponsabiliza\u00e7\u00e3o de formas simb\u00f3licas e verbais de viol\u00eancia.<\/li>\n<li><strong>Ter consci\u00eancia do contexto<\/strong> &#8211; Quando se vai pedir a algu\u00e9m para falar sobre um tema, conv\u00e9m demonstrar na pr\u00e1tica, quando se faz esse convite, que j\u00e1 se tem uma no\u00e7\u00e3o m\u00ednima do que se est\u00e1 a falar. A abordagem do &#8216;olha que tema giro e pouco falado, quero escrever sobre isso&#8217; \u00e9, \u00e0 falta de melhor palavra, predat\u00f3ria, porque desvirtua o tema em si, transformando-o numa esp\u00e9cie de <em>fait divers<\/em>. \u00c9 evidente que xs jornalistas n\u00e3o s\u00e3o especialistas consumadxs em tudo aquilo que escrevem, nem poderiam ser. Mas h\u00e1 uma diferen\u00e7a abissal entre ter uma ideia geral do tema e ser-se especialista. O que se requer aqui \u00e9 um trabalho <em>pr\u00e9vio<\/em> de prepara\u00e7\u00e3o te\u00f3rica sobre o assunto,\u00a0<em>antes<\/em> de se falar com mais algu\u00e9m. Geralmente, pelo que me \u00e9 dado a ver, xs jornalistas tentam fazer ao contr\u00e1rio, por uma quest\u00e3o de poupan\u00e7a de tempo e recursos: primeiro v\u00eaem se t\u00eam pessoas que lhes forne\u00e7am material em primeira m\u00e3o, e depois v\u00e3o debru\u00e7ar-se mais sobre o assunto. O resultado \u00e9 um famoso n\u00f3 g\u00f3rdio: jornalista prefere pesquisar depois de ter pessoas a falar-lhe do tema, mas essa falta de pesquisa faz com que o seu pedido de entrevistas soe oco e portanto n\u00e3o atraia pessoas para falar sobre o tema, o que faz com que x jornalista n\u00e3o v\u00e1 pesquisar sobre o tema, o que faz com que&#8230; &#8230;por a\u00ed em diante. Outra parte de ter consci\u00eancia do contexto \u00e9 perceber o que \u00e9 que j\u00e1 foi feito sobre o tema, em termos medi\u00e1ticos, e o que ainda est\u00e1 por fazer. H\u00e1 um limite de paci\u00eancia para pessoas que v\u00e3o falar sobre estes temas em constante registo &#8216;Olha a novidade fresquinha!&#8217;, especialmente quando a <em>novidade<\/em> tem quase tr\u00eas d\u00e9cadas de exist\u00eancia (no caso do poliamor). Estas no\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas v\u00e3o permitir escrever um pedido de entrevista mais contextualizado, mais capaz de captar a aten\u00e7\u00e3o de poss\u00edveis pessoas interessadas em falar, porque demonstra cuidado, porque demonstra compromisso e compreens\u00e3o.<\/li>\n<li><strong>Ter consci\u00eancia das culturas do jornalismo<\/strong> &#8211; Falar com jornalistas acerca das minhas m\u00e1s experi\u00eancias com jornalistas pode ser um exerc\u00edcio bastante frustrante, porque parece despoletar uma esp\u00e9cie de passivo-agressividade. Um pouco como se eu estivesse a pousar uma suspeita de falta de profissionalismo sobre a pessoa, ou sobre a classe profissional em geral. A defesa costuma ser nas linhas de &#8216;Mas eu n\u00e3o tenho culpa do mau jornalismo alheio&#8217; e &#8216;Mas eu sou profissional, diferente, \u00e9ticx&#8217;. O que pode ser perfeitamente verdade: mas do lado de c\u00e1, h\u00e1 o pequeno problema de que <em>toda a gente<\/em> diz isso. E n\u00e3o tem que ver com essa figura m\u00edtica do &#8220;mau jornalismo&#8221;. Tem que ver com algo bastante mais mundano: com as culturas do jornalismo. O jornalismo est\u00e1 em modo de hiperactividade, de instantaneidade, de &#8216;olha-esta-novidade-j\u00e1-passou-adeus&#8217;. As pessoas que trabalham em jornalismo est\u00e3o constantemente a ser pressionadas para fazer mais com menos, para dedicar o m\u00ednimo de tempo poss\u00edvel a cada pe\u00e7a, porque t\u00eam que escrever cada vez mais pe\u00e7as, em cada vez menos tempo; j\u00e1 para n\u00e3o falar de terem que fazer edi\u00e7\u00e3o de imagem, v\u00eddeo, som e daqui a pouco, grafismo. O problema \u00e9 que isto gera, para quem est\u00e1 a decidir se vai a uma entrevista ou n\u00e3o, uma sensa\u00e7\u00e3o de desconfian\u00e7a e de explora\u00e7\u00e3o (&#8216;Querem o meu tempo, mas est\u00e3o a despachar-me&#8217;). Simplesmente dizer &#8216;Eu sou profissional&#8217; ou &#8216;Eu trabalho na publica\u00e7\u00e3o X&#8217; n\u00e3o chega &#8211; \u00e9 preciso demonstrar, aquando dos pedidos de entrevista, que se est\u00e1 ciente desses problemas, e demonstrar na pr\u00e1tica o que se vai fazer para os obviar tanto quanto poss\u00edvel,\u00a0<em>e<\/em> come\u00e7ar esse processo logo durante o pedido de entrevista.<\/li>\n<li><strong>Utilizar cuidados espec\u00edficos com a linguagem<\/strong> &#8211; Este \u00e9 um ponto derivado do ponto 2, mas merece estar \u00e0 parte por ser incrivelmente importante, porque \u00f3bvio. \u00c0 partida, um pedido de entrevista que tenha express\u00f5es como: &#8220;casais poliamorosos&#8221;, &#8220;praticar o poliamor&#8221;, &#8220;adeptos do poliamor&#8221;, &#8220;jovens poliamorosos&#8221;, &#8220;praticar a poligamia&#8221;, &#8220;casamento gay&#8221;, &#8220;adop\u00e7\u00e3o gay&#8221; etc, etc, etc, v\u00e3o funcionar como se tivessem colocado, em letras bem garrafais, &#8220;N\u00c3O DEIXEM QUE EU VOS ENTREVISTE&#8221;. \u00c0 partida, uma pessoa LGBQA+ ou poliamorosa que veja qualquer uma dessas express\u00f5es vai pensar, <em>imediatamente<\/em>, &#8216;Oh n\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 tenho que ir dar uma entrevista, como vou ter que passar n\u00e3o-sei-quanto-tempo a\u00a0<em>reeducar<\/em> x jornalista&#8217;. E muita gente simplesmente n\u00e3o est\u00e1 para isso. Qualquer uma destas express\u00f5es denota, s\u00f3 por si, um desconhecimento dos elementos mais <em>rudimentares<\/em> do tema que se quer cobrir, e portanto n\u00e3o inspira qualquer confian\u00e7a no trabalho da pessoa que quer fazer as entrevistas. Quando fizerem um pedido de entrevista, preocupem-se com a dimens\u00e3o\u00a0<em>pr\u00e1tica<\/em> da linguagem que est\u00e3o \u00a0a usar, pensem nela como uma ferramenta de trabalho fundamental, com <em>nuances<\/em> que \u00e9 preciso respeitar.<\/li>\n<li><strong>Recusar uma falsa &#8220;imparcialidade&#8221;, perante quest\u00f5es de Direitos Humanos e de Cidadania<\/strong> &#8211; O jornalismo n\u00e3o pode ser imparcial face a direitos humanos e de cidadania, ou ent\u00e3o est\u00e1 a trair o seu papel democr\u00e1tico. Uma pe\u00e7a sobre poliamor n\u00e3o precisa de trat\u00e1-lo como algo melhor ou superior, nem precisa de endossar a sua pr\u00e1tica de forma alguma. Mas, ao mesmo tempo, tratar temas como poliamor ou quest\u00f5es LGBTQIA+\/MOGAI como quest\u00f5es de &#8216;estilo de vida&#8217;, ou em perspectiva &#8216;pr\u00f3s e contras&#8217; (n\u00e3o no sentido de identificar problemas dentro destes grupos, mas no sentido de ser <em>contra<\/em> estes grupos) \u00e9 fundamentalmente <em>trair<\/em> a miss\u00e3o do jornalismo, e recusar o reconhecimento pol\u00edtico destes temas. Ningu\u00e9m tem o direito de ser\u00a0<em>contra<\/em> a homossexualidade, ou\u00a0<em>contra<\/em> o poliamor, embora toda a gente tenha o direito de n\u00e3o\u00a0<em>ser<\/em> homossexual ou poliamorosa. Isto quer dizer que, no contexto do pedido de entrevista, x jornalista deve saber e conseguir posicionar-se politicamente face \u00e0 quest\u00e3o, lembrando sempre que\u00a0&#8220;<em>the personal is political<\/em>&#8220;. Tal passa por fazer um esfor\u00e7o por estabelecer credenciais pr\u00f3prias, explicar o porqu\u00ea de estar a fazer a pe\u00e7a, mostrar trabalhos pr\u00e9vios que estabele\u00e7am a credibilidade de quem pede a entrevista para trabalhar com temas de Direitos Humanos e de Cidadania numa perspectiva pol\u00edtica (e n\u00e3o a credibilidade de trabalhar com\u00a0<em>fait divers<\/em> \u00a0ou outra categoria de not\u00edcia).<\/li>\n<li><strong>Elaborar, apresentar e respeitar claramente as condi\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o da pe\u00e7a<\/strong> &#8211; As pessoas que fazem as pe\u00e7as jornal\u00edsticas n\u00e3o t\u00eam controlo sobre todos os elementos do produto final, mas isso tem que ser reconhecido \u00e0 partida, e negociado claramente com as pessoas que decidem participar nas entrevistas. O problema n\u00e3o \u00e9 tanto a falta de controlo que existe, ou as revis\u00f5es editoriais <em>a posteriori<\/em>, mas a falta de sensibiliza\u00e7\u00e3o que \u00e9 feita. Al\u00e9m disso, \u00e9 fundamental\u00a0criar um processo negocial com as fontes sobre quais s\u00e3o as responsabilidades de cada uma das partes e <em>respeitar<\/em> esses compromissos. Os compromissos podem passar por a entrevista ser gravada, por haver certos t\u00f3picos que se combina \u00e0 partida que n\u00e3o ser\u00e3o abordados na entrevista, por garantir anonimato, por ter o direito de ver o texto antes de ele ser publicado para garantir que n\u00e3o h\u00e1 incorrec\u00e7\u00f5es factuais gritantes (antigamente existia toda uma sub-classe de pessoas dedicadas a isto, xs\u00a0<em>fact-checkers<\/em>; na sua aus\u00eancia, s\u00e3o xs jornalistas que t\u00eam de ter esse cuidado e responsabilidade; pessoalmente, perdi a conta a quantas pessoas tinham a idade errada, profiss\u00e3o errada, e mil e uma outras coisas em pe\u00e7as em que participei, n\u00e3o por causa do &#8220;mau jornalismo&#8221;, mas por causa das culturas contempor\u00e2neas do jornalismo).<\/li>\n<li><strong>Reconhecer as pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es<\/strong> &#8211; N\u00e3o existem reportagens perfeitas, nem entendimentos perfeitos, e quem trabalha em jornalismo precisa de estar consciente disso. Se est\u00e3o inclu\u00eddas pessoas, na pe\u00e7a, que s\u00e3o especialistas na \u00e1rea a ser abordada, \u00e9 importante mostrar-lhes o texto para perceber se tem ou n\u00e3o alguma falha conceptual de fundo. Aqui \u00e9 comum ouvir a cr\u00edtica de que tal pr\u00e1tica (bem como a do ponto anterior) mina a isen\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica. Mas \u00e9 um equ\u00edvoco: o jornalismo n\u00e3o existe para fazer valer a voz autoral de quem escreve, mas para promover uma cultura de cidadania democr\u00e1tica e plural. O importante n\u00e3o \u00e9 respeitar a santidade dx autorx-jornalista, mas respeitar o direito do p\u00fablico a uma informa\u00e7\u00e3o de qualidade. E uma pessoa que trabalha em jornalismo e n\u00e3o domina na totalidade um dado t\u00f3pico &#8211; algo\u00a0<em>perfeitamente normal e aceit\u00e1vel<\/em> &#8211; pode e\u00a0<em>deve<\/em> contar com a colabora\u00e7\u00e3o de quem domina esse t\u00f3pico para impedir que defini\u00e7\u00f5es erradas, falsas equival\u00eancias, uso incorrecto de terminologia cient\u00edfica e outros problemas afins passem para o dom\u00ednio geral e sejam tomados como &#8216;verdade&#8217;. A constru\u00e7\u00e3o de uma not\u00edcia \u00e9 um fen\u00f3meno por natureza colaborativo. O apelo aqui \u00e9 a que se torne esse processo colaborativo mais transparente e horizontal, mais\u00a0<em>democr\u00e1tico<\/em>. H\u00e1 que estabelecer aqui uma diferen\u00e7a fundamental: isto n\u00e3o \u00e9 o mesmo que dizer que ent\u00e3o o pol\u00edtico X tamb\u00e9m deve ter privil\u00e9gios de &#8216;l\u00e1pis azul&#8217; sobre tudo o que o envolva &#8211;\u00a0<em>nada disso<\/em>. \u00c9 aqui que entra novamente o ponto 1 &#8211; n\u00e3o estamos a falar de pessoas com poder social e econ\u00f3mico que est\u00e3o com medo de ficar mal-vistas, estamos a falar de pessoas geralmente em situa\u00e7\u00e3o de fragilidade social relativa, e que est\u00e3o a tentar falar enquanto grupo minorit\u00e1rio.\u00a0<em>A disparidade de poder entre jornalistas e minorias \u00e9 incomparavelmente maior<\/em> do que entre jornalistas e pol\u00edticos. Essas din\u00e2micas de poder devem ser levadas em conta, e x jornalista deve fazer tudo ao seu alcance para garantir que as informa\u00e7\u00f5es veiculadas s\u00e3o\u00a0<em>correctas<\/em> e\u00a0<em>informativas<\/em> &#8211; o que nada tem que ver com sonegar informa\u00e7\u00e3o que possa ser desvantajosa para algu\u00e9m que participe numa pe\u00e7a jornal\u00edstica, ou muito menos tentar-se for\u00e7ar x jornalista a s\u00f3 escrever coisas boas e positivas sobre o tema. Os moldes deste processo devem ficar determinados\u00a0<em>antes<\/em> de o pr\u00f3prio momento da entrevista come\u00e7ar, tal como se diz no ponto 6.<\/li>\n<li><strong>Reconhecer que as fontes n\u00e3o devem nada e que o jornalismo n\u00e3o lhes est\u00e1 a fazer um favor<\/strong> &#8211; Pode parecer que xs jornalistas est\u00e3o a fazer uma esp\u00e9cie de &#8216;favor&#8217; \u00e0s pessoas activistas que participam em reportagens, e isso parece gerar um certo sentido de\u00a0<em>entitlement<\/em>; na verdade, o contr\u00e1rio seria mais ver\u00eddico, uma vez que existe extrac\u00e7\u00e3o de mais-valia, e que \u00e9 obriga\u00e7\u00e3o do jornalismo a garantia da pluralidade democr\u00e1tica. J\u00e1 vi jornalistas a ficarem irritadxs porque eu, ou outra pessoa, n\u00e3o quis dar uma entrevista. J\u00e1 tive jornalistas a pontificarem, perante mim, sobre o qu\u00e3o importante \u00e9 falar com jornalistas (!!). J\u00e1 vi jornalistas a terem atitudes que ro\u00e7am o ass\u00e9dio (em sentido n\u00e3o-sexual!) &#8211; &#8216;V\u00e1 l\u00e1, v\u00e1 l\u00e1, v\u00e1 l\u00e1&#8217;. Novamente, isto n\u00e3o \u00e9 um defeito profissional desta ou daquela pessoa, faz parte da cultura jornal\u00edstica do momento. Que \u00e9 como quem diz, \u00e9 uma atitude considerada aceit\u00e1vel. Mas n\u00e3o \u00e9. Repitam comigo: &#8216;N\u00e3o \u00e9 N\u00e3o!&#8217;. Isto vale para a agress\u00e3o sexual e para as SlutWalks, mas vale tamb\u00e9m para o resto das nossas interac\u00e7\u00f5es sociais, e as profissionais n\u00e3o ficam de fora. Respeitem um &#8220;N\u00e3o&#8221;, lembrem-se de todas as coisas neste\u00a0<em>post<\/em> que podem estar por detr\u00e1s desse n\u00e3o, e acima de tudo\u00a0<em>n\u00e3o coloquem a originalidade autoral jornal\u00edstica acima do respeito pelas pessoas entrevistadas<\/em>. Quantas vezes j\u00e1 ouvi que era preciso fazer a coisa X ou Y porque &#8220;assim a pe\u00e7a fica melhor&#8221;!&#8230; A pe\u00e7a pode ficar &#8220;melhor&#8221; de acordo com um conjunto de crit\u00e9rios, e pior de acordo com outro. O jornalismo est\u00e1 cada vez mais acometido de capitalismo &#8211; quantxs mais jornalistas medirem o &#8220;fica melhor&#8221; pelo n\u00famero de clicks gerados, pior estamos.<\/li>\n<li><strong>Ter em especial aten\u00e7\u00e3o as fontes &#8220;especializadas&#8221;<\/strong> &#8211; Uma pessoa com forma\u00e7\u00e3o em Sociologia n\u00e3o \u00e9 especialista em\u00a0<em>tudo<\/em> o que pode ser estudado nesse campo, uma pessoa com forma\u00e7\u00e3o em Psicologia idem. \u00c9 importante recorrer a especialistas que tenham algum\u00a0<em>background<\/em> sujeito a revis\u00e3o de pares no t\u00f3pico\u00a0<em>espec\u00edfico<\/em> que est\u00e1 a ser tratado; a maior parte das pessoas com especializa\u00e7\u00e3o em Sociologia da Fam\u00edlia n\u00e3o poderiam dizer sen\u00e3o generalidades sobre n\u00e3o-monogamias, porque as n\u00e3o estudaram directamente. O mesmo sobre quest\u00f5es LGBTQIA+\/MOGAI: n\u00e3o \u00e9 por uma pessoa ter feito um estudo junto de uma popula\u00e7\u00e3o l\u00e9sbica que vai, por exemplo, estar capacitada para comentar quest\u00f5es sobre assexualidade, a n\u00e3o ser nos termos mais generalistas. Infelizmente, muitxs &#8216;especialistas&#8217; s\u00e3o contactadxs n\u00e3o pelo seu CV, mas pela rapidez e facilidade de acesso (mais uma vez, culturas do jornalismo, n\u00e3o &#8220;mau jornalismo&#8221;), o que gera situa\u00e7\u00f5es em que uma pe\u00e7a de qualidade acaba a ser comentada por algu\u00e9m que est\u00e1 ideologicamente contra isto ou aquilo.\u00a0<em>Ideologicamente<\/em> aqui querendo dizer &#8220;sem trabalho acad\u00e9mico ou cient\u00edfico relevante que prove as asser\u00e7\u00f5es feitas&#8221;. Tamb\u00e9m \u00e9 preciso voltar a falar aqui do ponto 5: n\u00e3o \u00e9 jornalisticamente respons\u00e1vel apresentar, por exemplo, umx &#8216;especialista&#8217; que \u00e9\u00a0<em>contra<\/em> a homossexualidade numa pe\u00e7a sobre esse tema, mesmo que a seguir se apresente algu\u00e9m &#8216;a favor&#8217;. A ideia de ter pluralidade na cobertura jornal\u00edstica n\u00e3o pode\u00a0<em>de forma alguma<\/em> ser confundida com o uso do jornalismo para divulga\u00e7\u00e3o de discursos de \u00f3dio e de atropelos aos direitos de cidadania alheios, ainda para mais legitimados com a chancela &#8216;especialista&#8217;. Quanto mais desconhecido do p\u00fablico \u00e9 o tema, mais rapidamente se encontram pessoas irresponsavelmente dispostas a falar sobre o que n\u00e3o sabem, mas convencidas que sabem &#8211; e \u00e9 a\u00ed que um trabalho de prepara\u00e7\u00e3o adequado, verifica\u00e7\u00e3o de CVs das fontes em quest\u00e3o, e outras dilig\u00eancias, s\u00e3o fundamentais. J\u00e1 tive pedidos de entrevista que me foram dirigidos pessoalmente porque sabiam que eu &#8216;falava sobre poliamor&#8217;, mas de pessoas que estavam convencidas que eu era sex\u00f3logo, psic\u00f3logo, ou afins. Digamos que encontrar a minha \u00e1rea de estudos <a href=\"http:\/\/www.danielscardoso.net\/index.php\/pt\/aboutme\" target=\"_blank\">n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil<\/a>, mas a falta de credibilidade que um &#8216;deslize&#8217; desses provoca pode ser muito dif\u00edcil de sanar.<\/li>\n<li><strong>Fazer o seguimento p\u00f3s-publica\u00e7\u00e3o<\/strong> &#8211; A recolha de material sobre reac\u00e7\u00f5es da comunidade representada, e sobre as pessoas representadas, \u00e9 fundamental para uma avalia\u00e7\u00e3o auto-cr\u00edtica do trabalho efectuado. N\u00e3o se trata de procurar elogios ou de atirar pedras. Trata-se de uma atitude proactiva que tem como objectivo melhorar o trabalho jornal\u00edstico de quem o faz, e tamb\u00e9m melhorar o trabalho de activismo social de quem o faz. Se algu\u00e9m se quiser afirmar como jornalista num determinado ramo ou t\u00f3pico, ter\u00e1 de fazer este trabalho (de humildade) de perceber, aturadamente, o que poderia ter corrido melhor, e em que pontos \u00e9 que as expectativas de fontes e de jornalistas divergiram para, de uma pr\u00f3xima vez, o trabalho poder ser efectuado de forma mais transparente. A ideia de &#8220;responsabilidade social e profissional&#8221; necessita de levar em conta a pr\u00f3pria\u00a0<em>defini\u00e7\u00e3o<\/em> da palavra &#8220;responsabilidade&#8221; &#8211; que \u00e9 &#8216;responder perante&#8217;. Quem faz jornalismo sobre quest\u00f5es de Direitos Humanos e de Cidadania, precisa de o fazer com a no\u00e7\u00e3o de que tem que responder perante o p\u00fablico em geral, mas tamb\u00e9m perante aqueles grupos minorit\u00e1rios que est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social &#8211; democr\u00e1tica &#8211; na medida em que as culturas do jornalismo t\u00eam (e isto est\u00e1 mais que estudado) uma propens\u00e3o muito grande para disseminar e refor\u00e7ar as vis\u00f5es hegem\u00f3nicas e vigentes (e portanto discriminat\u00f3rias, anti-democr\u00e1ticas, abusivas) sobre temas considerados &#8216;inferiores&#8217;.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00e3o vejo este texto como o fim &#8211; espero que seja o princ\u00edpio de uma maior conversa sobre culturas do jornalismo, sobre responsabilidade social, sobre como trabalhar em conjunto com, e n\u00e3o contra. Por favor &#8211; mandem as vossas sugest\u00f5es para melhorar e apurar este texto. Obrigado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi em 2009 que apareci pela primeira vez na televis\u00e3o nacional a falar de poliamor &#8211; na RTP, no programa\u00a0Sete Palmos de Testa. Inexperi\u00eancia \u00e0 parte, diria que a minha participa\u00e7\u00e3o correu bem e foi positiva. (Pequena nota hist\u00f3rica: as apari\u00e7\u00f5es de poliamor na imprensa portuguesa come\u00e7aram\u00a0anos antes de eu sequer saber que &#8220;poliamor&#8221; existia, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":79,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"image","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[9,8],"tags":[55,35,38,83,16],"class_list":["post-78","post","type-post","status-publish","format-image","has-post-thumbnail","hentry","category-media","category-posts-em-portuges","tag-activismo","tag-jornalismo","tag-lgbtqia","tag-mogai","tag-poliamor","post_format-post-format-image"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/wp-content\/uploads\/2016\/02\/x103042531.jpg","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p5CI4b-1g","jetpack_likes_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=78"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":86,"href":"https:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/78\/revisions\/86"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media\/79"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=78"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=78"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.danielscardoso.net\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=78"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}