Acusado

dezembro 15, 2016

Era sangue que escorria da ferida aberta acidentalmente na ponta do meu dedo indicador direito. Para olhá-la, tinha que apontar para mim próprio, tinha que me sentir acusado e acusador numa só pessoa.

Depois era aquela sensação de sucção, aquele turbilhão. Estava no meio do mar e vinha uma onda bater-me no meio do peito, derrubando-me com força, fazendo-me perder o sentido de cima e baixo, de direita e de esquerda, de centro e de equilíbrio, com a água a entrar pelas minhas vias respiratórias dentro, deixando o ar de fora; era o sabor do mar, do sal na minha boca e no meu nariz e nos meus olhos em chamas e era o frio que me penetrava fisicamente para me fazer perder a consciência! Mas afinal a onda recuava já, eu estava a salvo, podia finalmente inalar e sentir o oxigénio a vivificar-me…! Estava de gatas, a procurar controlar a respiração, pensando: «É preciso ter azar! Ainda não foi desta…”

Ou então era um órfão numa terra distante, agarrado ao corpo moribundo da minha mãe, a chorar – não!, a suplicar – por comida, por comida que ela não podia dar. Eu só conseguia sentir o medo dela, a dor que os meus ossos provocavam ao roçar contra a minha pele: sim, que tudo o resto já tinha sido consumido pelo meu corpo, esse canibal autofágico que me queria matar. Só que nem o meu choro acordava a minha mãe do seu afinal descanso eterno, nem me matavam a fome e a sede as lágrimas que eu voltava a engolir. Era realmente uma infelicidade que eu não tivesse já força suficiente para retalhar, cozinhar e comer aquele corpo, que afinal só estava exangue.

Aquela pequena gota de sangue apontava para mim, como se eu tivesse culpa de todo o sangue que corria nesse preciso momento da ferida fatal de alguém, ou do ventre de todas as mulheres menstruadas. Enojei-me comigo mesmo por ter carne e ser matéria pronta a decompor. E a acusação mantinha-se.

 

Data original: 25/1/2005