Um conto FCT-iano

maio 3, 2018

Candidatei-me a uma bolsa de pós-doutoramento FCT em 2016.

 

Episódio 1 – A recusa

Depois disto, reclamei…

 

Episódio 2 – A audiência prévia

Na avaliação do “Mérito do Programa de Trabalhos” pode ler-se:
«indefinição quanto à dimensão do objecto e ao seu recorte, não ficando claro se estamos perante a análise de um movimento social ou de uma prática social alternativa no campo da intimidade».

Ora, considero que o programa de trabalhos define claramente e inequivocamente que estamos perante a análise de um movimento social. Senão, leia-se, no Resumo:
«Os trabalhos de investigação irão envolver o levantamento […] de actividades políticas e de participação cívica, bem como de entrevistas a elementos-chave dos movimentos»;
nos Objectivos:
«arquivo de informação que permita coligir e preservar a emergência de movimentos sociais em torno do poliamor e outras NMCs», «Análise do material para tipificação das actividades desenvolvidas por diferentes grupos e seu enquadramento nas fases dos movimentos sociais (Della Porta & Diani, 2006)», «Análise dos discursos envolvidos na construção das identidades dos movimentos»;
na Descrição detalhada:
«torna-se fundamental garantir a recolha e tratamento de dados históricos e sociológicos sobre o surgimento de movimentos sociais em torno das NMCs», «A compilação e preservação de um arquivo queer sobre os movimentos sociais ligados às NMCs», «que estratégias são preferidas, que reivindicações são expressas e como, que tipo de estrutura organizativa têm os movimentos, que ligações afectivas alimentam e estruturam a acção política, que questões, valores e princípios éticos orientam a acção, que alianças ou clivagens políticas são formadas com outros grupos –, e sociotécnica – que equipamentos e recursos, tecnológicos e financeiros, existem à disposição dos movimentos, como foram adquiridos e empregues, que planos ou intenções existem para os expandir», «identificar quais as principais comunidades e movimentos sociais associados às NMCs», «e identificar pontos-chave na história dos movimentos», «, identificar os principais elementos de contestação política dos movimentos, as possíveis medidas políticas propostas e/ou implementadas, como é que a retórica e narrativa discursiva política intersecta ou não com os Direitos Humanos e a cidadania da intimidade».

No que diz respeito à dimensão, é referido que existe apenas um grupo em Portugal, e um número incerto de grupos no Brasil, sendo exactamente essa uma das questões a resolver.

Pode também ler-se: «A cronologização carece de detalhe […] não é dada indicação de quanto tempo se perspectiva para a análise dos dados colectados».

Ora, a análise dos dados está compreendida no tempo dedicado ao trabalho de campo, o que justifica a sua extensão, uma vez que a própria análise (parcial) dos materiais recolhidos está ligada à continuação da investigação, através da criação de ligações e contactos com activistas, que permitirão o acesso a mais grupos e movimentos sociais.

 

Episódio 3 – O império contra-ataca

 

Episódio 4 – A gente já sabe onde isto vai parar… mas é pela honra

1) A dimensão do objecto não está claramente definida na medida em que o trabalho de campo necessário para permitir o conhecimento sobre a dimensão do objecto é um dos objectivos desta investigação. Ainda assim, o projecto apresentado tem, ao contrário do referido pelo júri, critérios de selecção: os pontos 1 e 3 na Descrição Detalhada contêm elementos de selecção de fontes, nomeadamente a escolha de fontes a partir da autoria dos materiais recolhidos e a escolha de fontes a partir da identificação de participantes em movimentos sociais. Ou seja, através do cruzamento das autorias de material disponível e através da identificação de quem são os principais actores sociais que estão envolvidos nos movimentos em torno de NMCs, será definido um grupo de pessoas a entrevistar, e um conjunto de material a analisar mais aprofundadamente. Na medida em que isso poderá gerar uma quantidade de trabalho incomportável para os prazos envolvidos, imperará sempre o princípio da máxima parcimónia, avançando hierarquicamente das pessoas mais relevantes identificadas, para as menos relevantes.

2) A cronologia contempla seis meses de trabalho de campo. A divisão será feita a partir da seguinte dinâmica: 1 mês de trabalho exploratório inicial, 1 mês de análise do material recolhido e pessoas identificadas nesta fase inicial, 2 meses de trabalho intensivo de entrevistas e nova recolha de material produzido, e adicionais 2 meses para nova fase de análise. Como pode ver-se no cronograma, este processo repete-se duas vezes. Como, a partir do contacto com ambas as comunidades, se estima que exista um possível diferencial no trabalho de campo em ambos os países, o trabalho de recolha no Brasil poderá ser estendido e depois compensado com um período de análise do período alocado ao trabalho de campo em Portugal na segunda “leva”. Esta fluidez, ao contrário de ser uma falha do projecto, é uma mais-valia, uma vez que o torna mais adaptável a circunstâncias ainda pouco conhecidas (fossem elas conhecidas e o projecto de investigação perderia boa parte da sua relevância e mais-valia em termos de conhecimento sociológico).

3) A objecção com maior relevância na apresentação inicial da avaliação do júri foi respondida em sede de audiência prévia e, não obstante, essa resposta foi no mesmo momento ignorada e a resposta em nada parece ter contribuído para alterar a classificação, pese embora a ausência de contra-argumentação contra a mesma.

4) No Mérito das condições de acolhimento, há a relevar vários factores: 1) neste momento, o CES é o único centro de investigação do país com um projecto de investigação financiado sobre NMCs (entre outros temas) e o único, a nível europeu, financiado pela Comissão Europeia nesse mesmo âmbito; a orientadora tem vasta experiência de trabalho em contextos multiculturais, e de reflexão científica e trabalho de investigação sobre a temática da poligamia, que se articula por tensão teórica (e de práxis) com as NMCs, tal como se encontra detalhado no projecto submetido. Este background, raro em Portugal mas fundamental para a componente científica, em conjunto com a especificidade do Centro de Investigação, deveria resultar numa revisão deste ponto da avaliação.

 

Episódio 5 – A omnipotência tem destas coisas

 

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