A meta

maio 1, 2017

A meta estava ali, tão próxima que quase era palpável, tão emocionantemente próxima que tudo o mais parecia ter-se evaporado completamente, sido remetido ao oblívio. O aplauso do público era uma explosão distante e contínua que já não exercia qualquer influência sobre mim. O que interessava era ganhar, era chegar primeiro que todos os outros! Estava à frente, estava em primeiro lugar, mais ninguém conseguia ser melhor do que eu; tudo aquilo pelo que eu sempre trabalhara estava a meros metros de mim e depois disso nada mais interessaria para ninguém, porque eventualmente iria cair no esquecimento, nunca mais seria lembrado – ou então sê-lo-ía de forma muito marginal, como um troféu que já é mais pó do que troféu, como uma glória passada quase pública, sem que ninguém pense por um momento neste ponto no continuum espaço-tempo em que todas estas ideias me passaram pela cabeça.

É um segundo de irritação, um segundo de niilismo idiota e inútil, é o tempo de pôr o pé esquerdo à frente do direito. É um curto espaço de nada, em que nada se faz, mas em que consegui decidir a minha vida e em que resolvi falhar. Caí. A minha cara embateu violentamente contra o empoeirado asfalto, o sangue brotou da minha pele rasgada, pó entrou pela minha boca, dando aquele gosto amargo e desagradável da derrota à minha derrota. Por entre as dores, sorri. Por entre a queda em espiral para dentro de um profundo coma causado por um traumatismo craniano, também sorri. Agora iam-se lembrar de mim com mais dor e eficácia!

Ou não…