Liberdade de expressão, censura e Direitos Humanos

março 16, 2017

 

A recente confusão em torno do adiamento da conferência de Nogueira Pinto veio – de novo – levantar uma questão com a qual Portugal parece endemicamente fadado a não saber digerir, e que já tinha surgido várias outras vezes ao longo dos últimos anos, nomeadamente com o caso do Charlie Hebdo: as distinções entre liberdade de expressão, discurso de ódio e suas correlações com censura.

Queria começar por prefaciar este texto situando-me: dou aulas a pessoas que querem ser jornalistas, e acredito na importância fundamental da liberdade de expressão para a manutenção, não apenas da democracia, mas do pluralismo democrático – para mim, uma condição incontornável de qualquer sentido forte de ‘democracia’. Mas também acrescento que, por ter participado num projecto de investigação, há vários anos e sob a gestão da Profa. Dra. Ana Cabrera, relacionado com a censura ao teatro e cinema durante o Estado Novo, tive acesso directo a documentação única, que coloriu o meu entendimento do que ‘censura’ quer dizer, para além das considerações teóricas básicas. Posso portanto não ter sequer idade para ainda ser nascido durante a ditadura do Estado Novo, mas foi-me dada uma edificante oportunidade de perceber como funcionavam os bastidores da censura, como decorriam as reuniões, que discussões eram tidas, e até que ponto o lápis azul era usado, por exemplo, em peças de teatro que falassem de grelos.

 

Estas considerações feitas, quero também avisar que nada do que vou escrever aqui é novo ou de algum modo revolucionário, mas dada a quantidade de discussões em que me vejo envolvido ao longo dos anos sobre este assunto, preferi juntar os meus pensamentos num sítio só, de fácil referência.

 

1 – Liberdade de expressão enquanto Direito

Disse, e repito, que a liberdade de expressão é fundamental para o processo democrático plural. Porém, esta frase precisa de ser qualificada, ou esclarecida, especialmente porque parece haver uma incompreensão profunda sobre o que constitui um direito, e quando se pode ou não falar de direitos. O primeiro elemento, e mais importante para esta conversa, é o facto de que não existem, em democracia, direitos absolutos. Aliás, o absolutismo vai buscar o seu nome precisamente da concentração de poderes, e portanto de direitos, na figura do monarca. O que quer isto dizer? Que existem limitações práticas aos direitos – ou seja, momentos e contextos em que uma determinada acção, ainda que pareça materialmente semelhante a outra, deixa de constituir o exercício de um direito; geralmente, isto dá-se quando o exercício dessa acção vai infringir directamente ou indirectamente os direitos de outra pessoa, de uma forma que não encontra justificação. Um exemplo extremo, mas comum, é o da liberdade de circulação: o direito que eu tenho a circular livremente permite-me, por exemplo, ir de país para país na UE, mas não me permite entrar em casa de outra pessoa sem autorização. Do mesmo modo, também não se considera que o perjúrio em tribunal seja uma violação da liberdade de expressão, porque se considera que mentir não está ao abrigo dessa mesma liberdade, ainda que o acto possa parecer, materialmente, o mesmo.

Outro factor tem que ver com um entendimento problemático do próprio acto de ‘expressão’. Geralmente agregado sob o binómio falar/fazer, a expressão é, a um tempo, entendida como uma acção fundamental para a existência humana, e um não-acto, sem consequências materiais ou reais. Assim, pegando no exemplo acima, entrar em casa de alguém sem convite é negativo porque existe uma invasão física do espaço; no caso da mentira em tribunal, existe o risco físico de alguém ser indevidamente preso. Porém, esta presunção de uma diferença entre falar e fazer vai contra, por um lado, a academia estabelecida sobre o funcionamento da linguagem e, por outro lado, contra o próprio senso-comum. Nós fazemos coisas com a linguagem, coisas essas que têm efeitos físicos: promessas e compromissos que nos levam a estar no lugar X às Y horas, trocamos palavras que nos deixam fisicamente eufóricos ou tristíssimos, e por aí em diante. Não estou a dizer que são, por exemplo, esses sentimentos que justificam ou deixam de justificar a existência da figura de ‘discurso de ódio’. Estou apenas a defender que não existe sustentação para a ideia de que fazer é diferente de falar. Tal como existe já bastante investigação que mostra a ligação entre bullying verbal e resultados negativos ao nível da saúde.

Resta portanto tentar perceber se de facto existe ou não existe alguma violação de direitos alheios com discurso homofóbico, xenófobo, sexista, e afins. Ora, aqui entram dois elementos diferentes: por um lado, o discurso de ódio é, pela sua própria natureza, uma afronta aos direitos de cidadania a que toda a gente tem direito; por outro, (e claro que estes dois pontos são apenas uma separação artificial), a enunciação de discurso de ódio implica, por si só, uma anulação do reconhecimento político das pessoas abrangidas pelo discurso de ódio. Bem sei que isto, dito assim, parece algo superficial ou básico. Mas a verdade é que, ao nível político, não existe nada pior do que isso. Não existe nenhum tipo de violência simbólica política mais grave do que a anulação do reconhecimento político. Porque, perante esse acto, todos os outros se tornam automaticamente legítimos. Assim, muito para além do sofrimento pessoal que tal acto possa causar – e que, sim, também tem que ver com o direito de estas pessoas não serem agredidas, uma vez que agressões verbais não são menos reais – a desautorização ou não-reconhecimento são uma violência política extrema, absolutamente inaceitável. [Já aqui me dirão que me estou a contradizer, na medida em que disse que nenhum direito era absoluto e agora estou a dizer que a ausência de reconhecimento é absolutamente inaceitável. Têm razão, verdade, parabéns. Para manter a coerência, então, vou admitir uma excepção a esta questão, que trato no ponto 3.]

2 – Da censura e dos silêncios

Outro elemento desta discussão, e que é tratado por algumas pessoas como relativamente independente do acima, tem que ver com a censura e do papel nefasto que esta pode ter para a democracia. Ou seja, ainda que se reconheça que existe o direito, em algumas circunstâncias, a limitar a expressão (porque a liberdade de expressão é ultrapassada e violada), considera-se que a censura é, essa sim, inaceitável porque decorre sempre da violação total de práticas democráticas necessárias.

Aqui, é já hábito comum citar uma frase daquelas que circulam pela net, e que em português é qualquer coisa do género “Posso discordar do que dizes, mas morreria pelo teu direito a dizê-lo”. Também em boa forma internética, esta citação é erroneamente atribuída a uma série de personalidades diferentes. A verdade da citação é bem mais prosaica – Evelyn Beatrice Hall escreveu uma obra sobre Voltaire e, comentando um certo acontecimento, condenou o acto de censura envolvido. Voltaire nunca disse a tal frase, Evelyn Hall apenas a parafraseou nos seus próprios termos.

No entanto, e ironicamente, a situação comentada por Voltaire serve-nos muito bem de exemplo prático aqui (e também de exemplo prático sobre por que é perigoso citar o que não se conhece a fundo, mas isso é outra história!…). O que estava Voltaire a ‘defender’? Um tratado filosófico e político anti-monárquico e anti-religioso. Voltaire não concordava com o dito tratado. Porém, o que sucedeu ao tratado? Ora, entrou em acção o poder executivo e judicial, e todos os exemplares conhecidos na altura foram queimados publicamente, mas só depois de o autor publicar preventivamente uma retractação, depois de ele se exilar voluntariamente para fora de Paris, e depois de o tratado ser colocado na lista de obras proibidas da Igreja. É contra todas estas medidas que Voltaire se manifesta, na altura. Reparem agora nos detalhes: temos, como no caso aqui em análise, uma forma de comunicação que toca temas políticos; até aqui tudo bem. A questão é que esta é a única semelhança paralela. No caso francês do tempo de Voltaire, o que suscita a condenação do filósofo é a intervenção estatal e religiosa.

Posto de outra forma, e sendo mais formal: não pode chamar-se censura a todas as formas de silêncio criadas por qualquer actor social, uma vez que a palavra censura pode apenas aplicar-se quando existe a intervenção da (ameaça de) violência de Estado no impedimento sistémico e total de uma determinada ideia ou categoria de pensamento. Existem imensos momentos em que alguém pode tentar falar e ver a sua vontade de falar ser-lhe negada – experimentem ir fazer um comício político para o meio de um funeral; ou no meio da rua às 4 da manhã com altifalantes, e verão o que vos acontece. E mesmo nestes casos, que podem envolver o Estado (na figura da polícia enquanto violência de Estado autorizada), não se falaria de censura. Porquê? Porque não apresentam carácter sistémico e total – e porque têm que ver com a preservação de outros direitos.

Portanto, é preciso ver, neste caso (seja o Charlie Hebdo, seja o Nogueira Pinto), se houve intervenção do Estado (não), e se essa intervenção foi sistémica (não) e total (não). Que provas há disso? Simples: consigo em segundos encontrar variadíssimos livros do autor em questão. Mais ainda – e para aquelas pessoas que defendem que é preciso deixar falar o discurso político, sob risco de se cair numa ditadura do pensamento conformista – consigo comprar o Mein Kampf, consigo comprar mil e uma obras de autores fascistas, reaccionários, etc etc. Uma conferência, um aparecimento público, um qualquer momento de intervenção não-Estatal não é censura, é apenas um ‘cala-te, que já não há quem te ature’. Geralmente, quando estamos no nosso espaço, é legítimo mandar calar alguém (comício no funeral), ou quando estamos perante uma violação de direitos alheios também (comício às 4 da manhã). Este caso tem ambas as razões juntas, e nenhum dos pormenores que qualifica a censura enquanto tal – nenhum mesmo.

3 – Da tolerância e da argumentação no espaço público

Assim sendo, eu sou totalmente a favor da ideia de que várias das coisas com as quais discordo profundamente tenham espaço para serem discutidas e debatidas. Essas coisas, porém, não incluem as que violam direitos alheios e que constituem formas de agressão política directa, uma vez que a agressão é, pela sua própria natureza, contraprodutiva para a produção de discurso político válido e útil.

Uma terceira objecção que é feita ao boicote de discurso fascista e de ódio tem que ver com esta mesma ideia: de que, por muito que as ideias sejam desgostosas, elas precisam de ser toleradas – que a tolerância é um valor fundamental da democracia, e que sem essa tolerância não existe verdadeira representatividade no espaço público. Porém, também aqui existem dois equívocos. O primeiro equívoco – da relação entre tolerância e democracia – é particularmente estranho, tendo em conta a matriz cultural europeia que nos rodeia. Aliás, ninguém mais insuspeito que o próprio Immanuel Kant o disse, no seu famoso texto de resposta a “O que é o Esclarecimento?” – que a tolerância é a coisa menos democrática que se pode imaginar, que seria um rebaixamento de qualquer tipo de autoridade, essa ideia de que certo discurso ou certa liberdade pode ser tolerado.

Ele não foi, de resto, o único a dizer tal coisa. É relativamente consensual a ideia de que a “tolerância” não é uma postura democrática pluralista, na medida em que enfatiza e reforça uma estrutura de poder vertical existente. Se uma determinada ideia deve ocupar o espaço político, público, então ela tem o direito de o fazer. Se ela necessita de ser tolerada, então está à mercê de quem exerce ou não essa tolerância enquanto beneplácito, o que, convenhamos, não é uma postura muito democrática.

O segundo equívoco tem que ver com a necessidade dessa tolerância para o processo democrático. Aqui, não vou buscar o Kant, mas uma outra figura, também não particularmente conhecida por teorias muito politicamente radicais: Karl Popper. Popper falava do paradoxo da tolerância: que uma sociedade supremamente tolerante se iria, por o ser, auto-destruir-se. Esta auto-destruição viria do facto de que tal tolerância se estenderia às pessoas intolerantes que, menos coarctadas por esse paradoxo, estariam à vontade para cumprir o seu próprio projecto político e portanto eliminar as pessoas tolerantes. Ou seja, toda a sociedade disposta a tolerar a intolerância estaria condenada ao cumprimento da intolerância total. Também John Rawls, apesar de dizer que a sociedade precisa de tolerar a intolerância, avisa que o princípio de auto-preservação de uma sociedade tem primazia sobre a tolerância, uma vez que a própria tolerância se predica na existência continuada dessa mesma sociedade.

Ou seja, se é o pluralismo que interessa e a diversidade de opiniões, então é fundamental olhar para as consequências materiais das escolhas que fazemos: a manutenção de uma atitude que alimenta, promove ou tolera os fascismos e os discursos de ódio conduz à extinção do próprio valor da diversidade, e da diversidade em si mesma; é portanto a pior escolha possível para quem diz querer manter essa diversidade.

É pela preservação do espaço público, é pela preservação do direito a continuarmos a falar e a debater que se torna necessário validar a ideia de que o espaço público tem o direito a defender-se – que nós o devemos defender. O mesmo é dizer, portanto, que o discurso de promoção do fascismo, do racismo, da xenofobia e do sexismo não acrescenta nada ao espaço público: não só por ser ameaçador para ele, mas também porque (como se viu acima) estas ideias não são novas e já circulam no espaço público. Nogueira Pinto, pese embora a fascinação que alguns sectores têm por ouvir um Professor a falar, não ia dizer nada que fosse verdadeiramente novo, ou que não tivesse já dito com muito alcance. O espaço público não ficou mais pobre sem tal intervenção, como não o ficaria sem várias outras expressões de discurso de ódio.

4 – Do discurso enquanto acto de poder

Uma última abordagem que quero fazer notar tem mais que ver com o caso do Charlie Hebdo e afins, do que com o caso Nogueira Pinto, e portanto que ver com formas mais subtis de discurso discriminatório, geralmente disfarçado de “crítica política”. Defende-se nestes casos que o humor e o gozo são fundamentais para permitir crítica política [sim, é notável o quanto a ideia de crítica está presente em grupos que, em chegando ao poder, recusariam qualquer tipo de crítica das formas mais opressivas possíveis], e que abdicar desta ferramenta seria perigoso. Geralmente, a comparação feita é com a famosa figura europeia do ‘bobo da corte’. O bobo da corte, grosso modo, era alguém cujo papel passava por ser da mais baixa ordem possível (portanto, socialmente desvalorizado) mas, ao mesmo tempo, incisivo o suficiente para poder criticar de forma mordaz o que via em seu redor.

Ora, a minha tese é a de que o bobo da corte é um excelente ponto de comparação, mas para demonstrar o que o Charlie Hebdo e outras formas de ‘humor’ com base em discurso de ódio não são. Para tal, avanço com uma proposta analítica (que, em boa verdade, não é nova, mas que quase nunca, ou nunca, vejo aplicada nestas discussões) que pode resolver vários problemas de uma só vez: 1) torna desnecessária a análise feita nos três pontos anteriores, 2) não requer a articulação em espaço público de comentários lesivos, que depois teriam de ser avaliados caso-a-caso, 3) permite retirar princípios gerais aplicáveis a outras áreas da sociedade e da política.

Proponho então que se considerem e analisem estes casos de suposta ‘liberdade de expressão’ sob a ideia de que estes actos de fala são manifestações de discursos que resultam em actos de poder. Assim, ao invés de analisarmos as características formais do acto (é humor?, é conferência?, é livro?) ou as características formais da enunciação (usou palavras ofensivas?, usou conceitos historicamente datados?, usou ambiguidades propositadas?, fez implicaturas?), deveremos antes analisar que relações de poder se estabelecem entre o sujeito de enunciação e o objecto de enunciação, com base nas respectivas posições de enunciação, com base nos respectivos desequilíbrios de poder. Note-se aqui que o que menos interessa é a posição social efectiva desta ou daquela pessoa, tomada isoladamente, mas sim a posição social dos discursos convocados para a defesa, e dos grupos sociais assim representados.

Neste ponto, é possível ir buscar um conceito da Grécia Antiga, muito trabalhado por Foucault – a parrhesia. Este termo é ocasionalmente traduzido como “a coragem da verdade”, mas o mais importante aqui é perceber quais são as características formais desta parrhesia. Em primeiro lugar, o parrhesiastes (a pessoa que usa de parrhesia) tem de acreditar que o que diz é verdadeiro. Isto não quer dizer que o seja necessariamente (ou seja, não é uma espécie de certificado ontológico), mas quem fala tem que acreditar na verdade do que diz. Em segundo lugar, o parrhesiastes tem que estar numa posição social de inferioridade (mesmo que apenas situacional) perante a pessoa a quem se dirige a parrhesia. Em terceiro lugar, (e em ligação com o anterior), o parrhesiastes tem que estar em risco por usar de parrhesia; este risco não precisa de ser um risco de vida, pode ser qualquer forma de punição simbólica, social, material ou física que possa recair sobre ele enquanto consequência directa do uso da parrhesia.

Por todas estas razões, a parrhesia é verdadeiramente um acto de enunciação – ninguém pode simplesmente ‘ser’ parrhesiastes, uma vez que tal função enunciativa surge apenas em contexto, e com o contexto também desaparece. Um homem rico doente pode, usando parrhesia, denunciar as más práticas de um médico que o está a tratar e que tem a sua vida nas mãos, mas fora esse contexto, mais provavelmente seria o médico o parrhesiastes do que o homem rico, por exemplo. Também dadas estas características, compreenderão se eu disser que a defesa da parrhesia é fundamental para a manutenção de uma democracia pluralista. Não é por acaso que Foucault usava também a expressão “falar verdade ao poder”.

Resta portanto ver se as situações acima descritas são ou não equivalentes. Comecemos pelo bobo da corte: de estatuto social baixíssimo, falando perante um poder vastamente superior que o poderia ameaçar e, idealmente, dizendo as coisas tal como as via, mordazmente, recorrendo a discursos que estariam numa posição subalterna face ao poder instituído. Neste sentido, a figura do bobo da corte e do parrhesiastes são correspondentes.

E no caso do Charlie Hebdo? Existe uma crença na própria verdade do que dizem? Sim, é possível que sim. Existe uma posição de inferioridade? Não: não só estamos a falar de uma empresa capitalista em funcionamento (aqui, algo menos importante), como estamos a falar de um discurso normativo, racista, nacionalista, com longa tradição europeia, e com práticas associadas que são sancionadas aos mais altos níveis políticos; enquanto existir racismo, sexismo, homofobia, etc, enquanto componentes constitutivos e organizadores da nossa experiência social quotidiana, estes continuam a ser discursos de poder e não contra poder. Existe um risco associado? Não, mais uma vez: não só porque não existe a posição de inferioridade social que criaria esse risco, como porque não existe sequer a possibilidade de causar dano do outro lado. Dirão “Ah, mas a sede da Charlie Hedbdo foi atacada!” Sim, é verdade. Porém, esse ataque não surgiu de uma instituição mais poderosa do que o próprio racismo constitutivo da sua linha editorial e, mais importante ainda, a onda de solidariedade pan-europeia que surgiu em seguida aumentou ainda mais o estatuto social e económico da publicação, contravencionando o suposto risco. Em suma:  se o bobo da corte, enquanto parrhesiastes, fala de baixo para cima, Charlie Hebdo fala de cima para baixo (como falam de cima para baixo todos os comediantes com as suas piadas sexistas, machistas, racistas, etc.).

Então e Nogueira Pinto? Novamente se segue a mesma lógica. Mesmo ignorando o seu estatuto social e de autoridade enquanto académico e professor universitário, o discurso de Nogueira Pinto é o discurso normativo racializado e xenófobo ainda vigente, que afecta e impacta grupos sociais cuja situação de fragilidade está sobejamente documentada. Também ele, como todo o PNR ou a Nova Portugualidade, está excluído do grupo dos parrhesiastes, e portanto o seu discurso não cumpre a mesma função perante a manutenção da democracia, ou a existência de momentos em que este é remetido ao silêncio (temporário, contextual) não afectam em nada a livre circulação de ideias e do debate político.


Em conclusão…

A “censura” do discurso que viola os Direitos Humanos: 1) não afecta os processos democráticos pluralistas; 2) não é censura; 3) não deve ser usada para apologia da ‘tolerância’; 4) é resultado de uma tentativa de equilibrar relações sociais de poder com vista a uma sociedade mais justa.

Abstinência sexual e morte

dezembro 21, 2016

 

 

 

 

 

Desculpem lá, mas há ideias que são criminosas. Há propostas políticas que são criminosas.
A notícia acima custou-me a engolir; cheguei a pensar que era um spoof qualquer. Parece que não. Tomara que se venha a descobrir, daqui a uns dias, que isto era falso. Prefiro o ridículo de ter falsamente acreditado nisto, do que a vergonha de isto ser verdade.
Tenho visto pessoas, ironicamente, a perguntar se voltámos ao século XVIII ou XIX. Mas não é historicamente a melhor altura para fazer comparações. Na verdade, mais facilmente poderíamos era estar em 1996, nos EUA, quando o Congresso aprova, à altura, 250 milhões de dólares para financiar programas de “educação sexual” só com abstinência. Ou em 2004, quando a administração Bush Jr. colocou de lado 170 milhões de dólares para o mesmo fim.
Mas porque é que eu chamo a isto de “proposta criminosa”? Bem…
A investigação mostra, por exemplo, que estes programas incluem informação cientificamente errada e que promove estereótipos de género nocivos (aqui), que não ajuda em nada a baixar a incidência do VIH/SIDA (aqui, também aqui, também aqui), que geralmente não alteram em nada os comportamentos sexuais das pessoas jovens (aqui), e por aí em diante…
Ou seja: na melhor das hipóteses, a educação sexual para a abstinência é comprovadamente inútil ou, então, activamente prejudicial.
Sabem o que é que funciona para impedir gravidezes não desejadas, e abortos? Espanto dos espantos: contraceptivos!
Pessoas, não há outra forma de colocar a questão: os jotinhas do PP querem colocar a sua vontade ideológica de pureza à frente da própria saúde e bem-estar das pessoas que dizem defender e representar. Isto é criminoso.
E vocês dizem-me: “Mas, oh Daniel, esses estudos são dos Estados Unidos; nós estamos em Portugal”. Toda a razão. Olhemos então para Portugal, sim?
Em Portugal, 93% das acções de Educação Sexual nas escolas são feitas por elementos externos às escolas (aqui), o que frequentemente se traduz numa aprendizagem fragmentada e desconexa, sem estrutura nem acompanhamento – sendo isto dados de apenas metade das Escolas que foram convidadas a submeter informação. Portanto, o panorama pode ser ainda pior. A ajudar, claro, temos ainda em Portugal Associações de Pais que têm estado fortemente envolvidas em bloquear o acesso dos educandos e educandas a recursos de saúde sexual, acreditando falsamente (aqui) que isso os ajuda a iniciar a vida sexual mais tarde.
Muitos destes pânicos se sustentam numa ideia totalmente ficcional: a de que as pessoas jovens cada vez iniciam a sua actividade sexual mais cedo. Não… é… verdade…! O número de jovens que afirma já ter iniciado a sua vida sexual tem vindo a descer nos últimos anos (de 23,7% em 2002 para 21,8% em 2010 e 12,8% em 2014 – aqui e aqui).
Sabem o que é que está associado com um início mais tardio da actividade sexual? A existência de Educação Sexual de qualidade e um maior nível geral de escolaridade.
Portanto, repitam comigo: A “educação” para a abstinência não existe. Da mesma maneira que água seca, fogo frio e vida morta também não existem.
O que existe, isso sim, é uma campanha dos jotinhas do CDS-PP para prejudicar activamente e propositadamente a saúde (sexual e não só) das pessoas jovens, com especial impacto em raparigas e pessoas não-heterossexuais. A abstinência sexual na “educação” é uma política de morte.

 

Acusado

dezembro 15, 2016

Era sangue que escorria da ferida aberta acidentalmente na ponta do meu dedo indicador direito. Para olhá-la, tinha que apontar para mim próprio, tinha que me sentir acusado e acusador numa só pessoa.

Depois era aquela sensação de sucção, aquele turbilhão. Estava no meio do mar e vinha uma onda bater-me no meio do peito, derrubando-me com força, fazendo-me perder o sentido de cima e baixo, de direita e de esquerda, de centro e de equilíbrio, com a água a entrar pelas minhas vias respiratórias dentro, deixando o ar de fora; era o sabor do mar, do sal na minha boca e no meu nariz e nos meus olhos em chamas e era o frio que me penetrava fisicamente para me fazer perder a consciência! Mas afinal a onda recuava já, eu estava a salvo, podia finalmente inalar e sentir o oxigénio a vivificar-me…! Estava de gatas, a procurar controlar a respiração, pensando: «É preciso ter azar! Ainda não foi desta…”

Ou então era um órfão numa terra distante, agarrado ao corpo moribundo da minha mãe, a chorar – não!, a suplicar – por comida, por comida que ela não podia dar. Eu só conseguia sentir o medo dela, a dor que os meus ossos provocavam ao roçar contra a minha pele: sim, que tudo o resto já tinha sido consumido pelo meu corpo, esse canibal autofágico que me queria matar. Só que nem o meu choro acordava a minha mãe do seu afinal descanso eterno, nem me matavam a fome e a sede as lágrimas que eu voltava a engolir. Era realmente uma infelicidade que eu não tivesse já força suficiente para retalhar, cozinhar e comer aquele corpo, que afinal só estava exangue.

Aquela pequena gota de sangue apontava para mim, como se eu tivesse culpa de todo o sangue que corria nesse preciso momento da ferida fatal de alguém, ou do ventre de todas as mulheres menstruadas. Enojei-me comigo mesmo por ter carne e ser matéria pronta a decompor. E a acusação mantinha-se.

 

Data original: 25/1/2005

Vinte e quatro horas

dezembro 10, 2016

Era interessante se lá fora não estivesse a chover. Mas está. A chuva cai nas folhas já ensopadas e eu não consigo encontrar uma linha na página pautada que tenho na mão.

Penso apenas: “ainda bem que não sou um caracol, que não tenho a sua lentidão, ou morreria de stress prematuramente!” Depois encontro alguém a correr a alta velocidade, ou num carro desportivo topo de gama e desejo ser um caracol, para poder ter mais alguma velocidade.
É claro que também odiava ser aquela minhoca que rasteja por debaixo do solo, cega, engolindo os pequenos minerais que lhe chegam ao seu tracto digestivo – coitada, não pode nem contemplar a luz do Sol. Depois quando saio à rua e o Sol me faz doer os olhos, desejo poder enterrar-me nas profundezas dos abismos da Terra para não ter de suportar aquela dor.

Pára de chover entretanto, mas o vento ainda sopra e eu olho a pétala que cai docemente no pavimento alcatroado, para de seguida um carro lhe passar por cima, deixando nela uma impressão de pneu. Sinto-me horrivelmente esmagado por este acto de insana loucura e sadismo e apetece-me vazar os olhos ao condutor por ter prostituído a beleza… Não – nem foi prostituição, que essa envolve pagamento e neste caso apenas houve… violação! Foi o condutor que rasgou o interior do próprio conceito de beleza, que o esmagou debaixo de si! (Vi, no dia seguinte, que afinal era uma mulher quem conduzia o carro àquela hora, todos os dias… A agridoce ironia quase me fazia chorar.)

Ouço finalmente o tiquetaque do relógio. É velho, de parede, dos antigos. Cada badalada a meio da noite é um tiro de caçadeira nos meus miolos, e o meu quarto fica então regado com sangue, neurónios, células de glia, neurotransmissores, pedaços de osso e pele e uma vida que foi outrora… Só quando o despertador toca é que tudo volta ao sítio: a carne, o osso e a pele reconstroem-se por magia e eu fico sem saber se o relógio me matou com um tiro de caçadeira. É claro que, uma hora depois, ao chegar à escola, bastam dez minutos para desejar que o pesadelo que se repete todas as noites tivesse sido real.

São 22:30, diz o meu relógio de pulso digital. «Porra!», exclamo. É da fadiga, claro. Só pode ser. Mas a verdade é que não me faço rogado. Toco-me. Venho-me. Limpo-me. Não adormeço. Reviro-me na cama e só sei pensar: «Porra. Porra… porra, porra porraporraporraporra!» Pergunto-me pela porra do significado da porra da palavra “porra”… Porra, não o sei! E o dicionário está a mais de dez centímetros de mim, portanto que se lixe o dicionário e mais a porra da palavra que uso sem saber exactamente – porra!, quero eu dizer “minimamente” – o que significa.

Foram vinte e quatro horas – daqui a nada serão os meus miolos novamente espalhados na parede – e nada se fez realmente. Penso no vento, que todos creêm que “passa” e que não faz nada: «os estúpidos e ignorantes que inventaram essa metáfora deviam estar a dormir! Levem lá com um furacão nos cornos e vejam se por acaso o vento não faz nada, ó espertinhos!» Depois choro. Não me reconheço nestas barbaridades todas. Não era assim que eu era antes de me virem derrubar do poleiro instável onde mantive a minha mente intacta durante tanto tempo. Cresci tanto que me esqueci de como é que se usavam os olhos para olhar para baixo, o que me levou a engordar, a encher, a insuflar como um balão… mas de chumbo, de pirite, de estrume infecto e rançoso.

Continuo sem conseguir encontrar uma linha numa página pautada. Só vejo traços irregulares gravados no papel e penso se não será isso a que chamam linha. O problema é que para mim uma linha conduz a alguma coisa, nem que seja ao infinito, enquanto que estas, ao chegarem ao fim da página, se precipitam no nada. E do nada já eu estou farto. Pego na caneta e desenho o símbolo de infinito, irregularmente. «Aí está uma linha decente, ó idiotas!», exclamo em voz alta. Só depois é que vejo que perdi o princípio e que por causa disso vou perder o fim.

 

Original: 24 de Janeiro de 2005

Histórias da Academia

novembro 23, 2016

Na sequência do meu post anterior – Vamos falar da ‘Academia’ – estou à procura de histórias sobre experiências de estar na academia, de ter passado pela academia, de como é viver de forma precária, genderizada, e frequentemente pouco saudável, na Academia, para que depois elas sejam partilhadas, de forma anónima, conforme forem chegando.

Creio que é fundamental que se visibilizem mais e diferentes narrativas para além do sucesso, dos índices de produção e dos CVs maiores que o nosso braço.

Podem partilhar este link com qualquer pessoa, com qualquer grupo, para aumentar as vozes que se ouvem, se recolhem e arquivam.

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Vamos falar da ‘Academia’

outubro 23, 2016

Cinco anos.

Eu tinha cinco anos quando entrei para a escola primária.

Doze anos (lectivos) depois, entrei na Universidade. Mais três anos lectivos, e tinha uma licenciatura. Mas não só: também falta de dinheiro para prosseguir estudos. Um ano (lectivo e não-lectivo) a trabalhar como bolseiro de investigação e, logo a seguir, Mestrado  [quem diz “logo a seguir”, diz “ao mesmo tempo”]. Dois anos lectivos (porque entretanto estava com estatuto de trabalhador-estudante). Ainda o Mestrado não tinha oficialmente acabado e já eu estava no Doutoramento. Um ano lectivo de aulas, e seriam mais três de investigação e tese, mas que acabaram por virar cerca de quatro.

Tenho 29 anos. Desses, vinte e dois são medidos em “anos lectivos”. É-me mesmo mais fácil pensar em anos lectivos do que em anos legais.

Estou muito longe de ser um investigador “experiente”. Estou muito longe de ser um ‘académico’ “experiente”. Estou muito longe de ser um docente “experiente”. Mas há uma coisa que desde cedo me foi incutida por várias pessoas, mais experientes do que eu, neste mundo da investigação, da Universidade, e que outras experiências minhas de activismo reforçaram: é preciso ouvir os silêncios, os interstícios nos discursos, as pausas que cortam o que se diz.

 

Nesse sentido, há aqui, nesta nossa academia, um silêncio ensurdecedor. Eu consigo literalmente morrer esmagado em livros sobre metodologias de investigação, e muitos deles têm frases, algures (a medo), sobre como a investigação pode ser um processo “solitário”. Sobre como a investigação nos pode levar a focarmo-nos demasiado num detalhe específico, e perdermos a visão de conjunto. E há, claro, infinitas variantes de humor e de humor-transformado-em-investigação. Também bastante falado, especialmente nos últimos anos, é o avanço da neoliberalização da academia, com as métricas quantitativas, os salários abaixo do custo de vida, as condições laborais precárias, o ciclo de bolsa-em-bolsa. Por fim, não é preciso sequer sair de casa para ler/ouvir críticas “à academia” de quem lá não está, ou lá nunca esteve, (ou seja, de quem tem um olhar crítico – algo fundamental – mas que não procurou conhecer em profundidade o objecto da sua crítica – algo perigosíssimo; não é preciso fazer parte da estrutura académica para a criticar, mas qualquer crítica efectiva deve ir ao fundo das questões se as quer mudar).

Mesmo assim, mesmo com isto tudo, continua a haver um silêncio ensurdecedor. E sabem o que é mais engraçado? Esse silêncio é ensurdecedor porque eu não consigo falar com outras pessoas do meu meio profissional sem encontrar experiências semelhantes à minha mas, ao mesmo tempo, com toda esta gente convencida que só elas passaram por isso. Então, quando eu digo que quero falar da ‘Academia’, neste caso, não tem que ver com falar de qualquer um dos pontos acima.

Bem, mentira. Até tem. Aquilo que eu quero dizer está em relação directa com tudo isso – com a precarização, com a neoliberalização, com transformações sociais mais largas. Mas não é esse o ângulo que aqui me move.

Então, vamos falar da ‘Academia’.

Vamos falar de como, em Portugal, mais de 60% dxs professorxs universitárixs sofrem de burnout (dir-se-ia, um termo fancy para falar de depressão).

Vamos falar de como uma conversa em torno da saúde mental na ‘Academia’ já começou “lá fora”, mas nunca chegou cá, apesar de ser um problema transversal, internacional.

Vamos falar das horas de trabalho invisível, administrativo, burocrático, indispensável para fazer as instituições funcionar, mas que não conta como trabalho.

Vamos falar do trabalho emocional envolvido, tão profundamente genderizado e classista.

Vamos falar dos prazos arbitrários para esta-ou-aquela coisa; trinta dias para submeter o papel X, mas ao telefone dizem “ah, não se preocupe se se atrasar mais umas duas ou três semanas”.

Vamos falar da complexidade de negociar relações pessoais e profissionais com orientadorxs, com colegas, com chefes, com gestorxs de projecto, com investigadorxs principais. (Não. Não é coisa de “personalidades”. Não é coisa de “casos pontuais”. Não é isso. São estruturas de poder, lugares que as pessoas ocupam e são feitas ocupar.)

Vamos falar daquela sensação absolutamente devoradora, de nos levantarmos da cama, para nos sentarmos em frente ao computador, e ficarmos felizes se, doze horas depois, conseguimos escrever meia dúzia de páginas naquela tese, ou naquele paper.

Agora vamos falar disso repetido por uma semana. Um mês. Um ano. Dois anos.

Vamos falar do desligamento, da obsessão.

Vamos falar de como esta ou aquela tese, este ou aquele relatório, pode dar cabo da nossa vida social. Ou pode não dar cabo da nossa vida social, mas dar cabo da nossa vontade de ter vida social – o que vai dar no mesmo.

Vamos falar de como esta performance de académicx suga a vida e a energia de quem está à nossa volta, e nos faz esticar as redes de suporte até ao máximo – e às vezes para além do máximo.

Vamos falar sobre o facto de não aparecer, em lado nenhum de uma candidatura a um doutoramento, o item “redes de suporte social e familiar extra-resistentes, com cobertura em kevlar”. Ou de como ter um trabalho e fazer um doutoramento roça a fantasia.

Vamos falar sobre como isto tudo quer, na verdade, dizer que é necessário um privilégio enorme para conseguir de facto terminar esta coisa a que se chama “doutoramento”. Que isso é anti-democrático.

Vamos falar sobre como estas performances de academia funcionam, na prática, como uma espécie de versão retorcida das Provas de Hércules – temos que ser a boa pessoa académica, sobrevivendo à experiência, e não produzindo conhecimento.

Vamos falar de como, para tantas pessoas que conheço (e para mim), esta experiência nos drena, nos esvazia, nos desespera.

Vamos falar da culpa. Vamos por-amor-de-lúcifer falar da culpa. Da culpa cristã, ou coisa que o valha. Porque estamos a comer, mas podíamos estar a escrever. Porque estamos a tomar banho, mas podíamos estar a ler. Porque estamos a ir ver um filme ao cinema, mas podíamos estar a rever. Porque estamos a ler um livro de ficção, mas podíamos estar a analisar mais aqueles dados. Fazer mais aquele gráfico. Codificar mais aquelas respostas.

Vamos falar da defesa pública da tese. Vamos falar da adrenalina, da euforia, do nervosismo. Mas vamos ainda mais falar do vazio. Do nada. De quando o pico de adrenalina passa, e de quando o jantar de comemoração passa, e de quando olhamos à nossa volta e pensamos… “Então… é isto?… Três/Quatro/Cinco anos… é isto? Estas duas horas?”

Vamos falar de como chegamos a demorar meses só a conseguir arrumar as coisas que reunimos para aquela tese / aquele projecto / aquele relatório. Da relação de amor-ódio que temos com aquelas coisas, de as vermos todos os dias e sentirmos uma onda de impotência gigante, como se aqueles livros e aquelas fotocópias pesassem toneladas.

Vamos falar do vazio que se instala depois. Várias pessoas conheço que demoraram um ano ou mais a sentirem-se elas mesmas de novo. Como se alguma coisa se tivesse avariado no processo, e fosse preciso curar. Uma mutilação mental temporária, aos poucos e poucos restabelecida – mas com a cicatriz sempre lá, com o tecido sempre um pouco mais frágil.

Vamos falar sobre como não é suposto falar disto, porque falar disto é falar da Loucura, e falar da Loucura ameaça a performance de racionalidade suprema da academia.

Vamos falar de ter medo de falar destas coisas com a pessoa ‘errada’, porque podemos parecer menos confiáveis, e portanto cair em demérito.

Vamos falar do trabalho que dá manter uma performance de execução, de realização pessoal e profissional de topo, num ritmo frenético, e onde (não sem alguma ironia, dada a conotação da expressão “trabalho intelectual”) a melhor metáfora parece ser a do Chaplin em Tempos Modernos.

Vamos falar da absurda distinção entre “trabalho físico” e “trabalho intelectual”. Da última vez que verifiquei, ainda tinha o cérebro dentro do corpo, e ainda dependia do resto do corpo para o fazer trabalhar.

Vamos falar, por fim, destes silêncios. De como eles se promovem, não por uma qualquer conspiração vinda de cima, desta ou daquela estrutura e instituição, mas das práticas quotidianas, interpessoais, das disciplinas que interiorizamos junto com as citações fáceis desta ou daquela sumidade.

Sim. Claro. #NotAllAcademics

Mas 60% é muito. É demais. Não é por acaso. Não é situacional. É estrutural.

Vamos falar?

Cidadania da Intimidade – Dicas para Jornalistas

fevereiro 11, 2016

x10304253[1]Foi em 2009 que apareci pela primeira vez na televisão nacional a falar de poliamor – na RTP, no programa Sete Palmos de Testa. Inexperiência à parte, diria que a minha participação correu bem e foi positiva. (Pequena nota histórica: as aparições de poliamor na imprensa portuguesa começaram anos antes de eu sequer saber que “poliamor” existia, por outras pessoas, que por várias razões entretanto se afastaram das participações junto dos media.)

Desde então, e mesmo entretanto tendo eu resolvido fazer um hiato quase total de aparições nos media relacionadas com não-monogamias, já recebi directamente ou me pediram para retransmitir dezenas de pedidos de participação em reportagens, programas e afins. Invariavelmente (e o excesso da minha presença nos media a falar sobre poliamor deve-se a isso, e nada mais) xs jornalistas que me contactam acabam a expressar alguma frustração por não terem ninguém, ou quase ninguém, a ir ter com elxs para uma entrevista, fotografias, ou outras formas de participação.

Nesse sentido, e porque acho importante a visibilidade nos media, mas também acho importante a existência de um jornalismo socialmente responsável e crítico, gostaria de iniciar uma conversa sobre possíveis razões por detrás deste afastamento, e deixar dicas que poderão, creio, beneficiar tanto activistas como jornalistas. Estas dicas surgem muito a partir da minha experiência pessoal, que é tripla: como pessoa com formação em jornalismo, como professor de pessoas que querem trabalhar em jornalismo, e como pessoa frequentemente entrevistada por jornalistas. Estas dicas são feitas com jornalistas em mente enquanto público-alvo, e são também pensadas como sugestões úteis, e não apenas críticas de “mau jornalismo”. (Para quem quiser dicas sobre como falar com os media, tem aqui um excelente resumo, em inglês.) Quem quiser enviar mais sugestões, críticas ou correcções, poderá fazê-lo para danielscardoso [at] gmail [.] com

Em virtude da ligação entre este post e a minha experiência pessoal, a maioria dos exemplos revolve em torno das não-monogamias. No entanto, creio que várias das alíneas podem ser adaptadas para questões LGBTQIA+/MOGAI, sobre racismo, sobre discriminação de género, entre outros elementos.

 

  1. Ter consciência do impacto – Começo por aqui, porque este elemento está aquém do próprio processo de iniciar a entrevista. Quando alguém pede a uma pessoa de uma minoria para dar a cara (ainda que sob anonimato) sobre a sua vida e sobre aquilo que ela vive, não está a pedir uma entrevista. Está a pedir um momento de risco que pode ser múltiplo: identificação ou coming out forçado junto do trabalho, junto da família, junto de amigxs, junto de vizinhxs – e consequentes problemas sociais com maior ou menor gravidade – são riscos reais que qualquer pessoa nestas circunstâncias tem que equacionar, antes sequer de pensar se vai ou não responder ao pedido de entrevista. E algumas pessoas, muitas até, não estão sequer em condições socioeconómicas de arriscar essa possível exposição. Além disso, vários são os pedidos de entrevista que me chegam (para divulgação por entre o grupo PolyPortugal) onde o tópico do anonimato não é sequer mencionado; isto deixa as pessoas “de pé atrás”, porque aumenta a suspeita de que o pedido feito não mostra ter, por detrás, uma reflexão sobre o que se quer fazer. Além disso, e para além da questão do anonimato, qualquer pessoa que vá ser entrevistada sobre este tipo de temas vai de certeza absoluta ser alvo de ataques de discurso de ódio em redes sociais, junto dos próprios meios de comunicação que divulgam as notícias, e geralmente sem qualquer controlo editorial sobre o que é postado. Quem pede uma entrevista, está a pedir que a pessoa se exponha, e está a pedir que a pessoa lide com esse mesmo discurso de ódio. Isto é válido mesmo para quem activamente procure não ir ler esses comentários. E não, nem quero sequer dar abertura à ideia de que “quem se expõe tem que saber lidar com isso”, uma vez que não vejo nesse argumento mais do que uma cultura de desresponsabilização de formas simbólicas e verbais de violência.
  2. Ter consciência do contexto – Quando se vai pedir a alguém para falar sobre um tema, convém demonstrar na prática, quando se faz esse convite, que já se tem uma noção mínima do que se está a falar. A abordagem do ‘olha que tema giro e pouco falado, quero escrever sobre isso’ é, à falta de melhor palavra, predatória, porque desvirtua o tema em si, transformando-o numa espécie de fait divers. É evidente que xs jornalistas não são especialistas consumadxs em tudo aquilo que escrevem, nem poderiam ser. Mas há uma diferença abissal entre ter uma ideia geral do tema e ser-se especialista. O que se requer aqui é um trabalho prévio de preparação teórica sobre o assunto, antes de se falar com mais alguém. Geralmente, pelo que me é dado a ver, xs jornalistas tentam fazer ao contrário, por uma questão de poupança de tempo e recursos: primeiro vêem se têm pessoas que lhes forneçam material em primeira mão, e depois vão debruçar-se mais sobre o assunto. O resultado é um famoso nó górdio: jornalista prefere pesquisar depois de ter pessoas a falar-lhe do tema, mas essa falta de pesquisa faz com que o seu pedido de entrevistas soe oco e portanto não atraia pessoas para falar sobre o tema, o que faz com que x jornalista não vá pesquisar sobre o tema, o que faz com que… …por aí em diante. Outra parte de ter consciência do contexto é perceber o que é que já foi feito sobre o tema, em termos mediáticos, e o que ainda está por fazer. Há um limite de paciência para pessoas que vão falar sobre estes temas em constante registo ‘Olha a novidade fresquinha!’, especialmente quando a novidade tem quase três décadas de existência (no caso do poliamor). Estas noções básicas vão permitir escrever um pedido de entrevista mais contextualizado, mais capaz de captar a atenção de possíveis pessoas interessadas em falar, porque demonstra cuidado, porque demonstra compromisso e compreensão.
  3. Ter consciência das culturas do jornalismo – Falar com jornalistas acerca das minhas más experiências com jornalistas pode ser um exercício bastante frustrante, porque parece despoletar uma espécie de passivo-agressividade. Um pouco como se eu estivesse a pousar uma suspeita de falta de profissionalismo sobre a pessoa, ou sobre a classe profissional em geral. A defesa costuma ser nas linhas de ‘Mas eu não tenho culpa do mau jornalismo alheio’ e ‘Mas eu sou profissional, diferente, éticx’. O que pode ser perfeitamente verdade: mas do lado de cá, há o pequeno problema de que toda a gente diz isso. E não tem que ver com essa figura mítica do “mau jornalismo”. Tem que ver com algo bastante mais mundano: com as culturas do jornalismo. O jornalismo está em modo de hiperactividade, de instantaneidade, de ‘olha-esta-novidade-já-passou-adeus’. As pessoas que trabalham em jornalismo estão constantemente a ser pressionadas para fazer mais com menos, para dedicar o mínimo de tempo possível a cada peça, porque têm que escrever cada vez mais peças, em cada vez menos tempo; já para não falar de terem que fazer edição de imagem, vídeo, som e daqui a pouco, grafismo. O problema é que isto gera, para quem está a decidir se vai a uma entrevista ou não, uma sensação de desconfiança e de exploração (‘Querem o meu tempo, mas estão a despachar-me’). Simplesmente dizer ‘Eu sou profissional’ ou ‘Eu trabalho na publicação X’ não chega – é preciso demonstrar, aquando dos pedidos de entrevista, que se está ciente desses problemas, e demonstrar na prática o que se vai fazer para os obviar tanto quanto possível, e começar esse processo logo durante o pedido de entrevista.
  4. Utilizar cuidados específicos com a linguagem – Este é um ponto derivado do ponto 2, mas merece estar à parte por ser incrivelmente importante, porque óbvio. À partida, um pedido de entrevista que tenha expressões como: “casais poliamorosos”, “praticar o poliamor”, “adeptos do poliamor”, “jovens poliamorosos”, “praticar a poligamia”, “casamento gay”, “adopção gay” etc, etc, etc, vão funcionar como se tivessem colocado, em letras bem garrafais, “NÃO DEIXEM QUE EU VOS ENTREVISTE”. À partida, uma pessoa LGBQA+ ou poliamorosa que veja qualquer uma dessas expressões vai pensar, imediatamente, ‘Oh não, não só tenho que ir dar uma entrevista, como vou ter que passar não-sei-quanto-tempo a reeducar x jornalista’. E muita gente simplesmente não está para isso. Qualquer uma destas expressões denota, só por si, um desconhecimento dos elementos mais rudimentares do tema que se quer cobrir, e portanto não inspira qualquer confiança no trabalho da pessoa que quer fazer as entrevistas. Quando fizerem um pedido de entrevista, preocupem-se com a dimensão prática da linguagem que estão  a usar, pensem nela como uma ferramenta de trabalho fundamental, com nuances que é preciso respeitar.
  5. Recusar uma falsa “imparcialidade”, perante questões de Direitos Humanos e de Cidadania – O jornalismo não pode ser imparcial face a direitos humanos e de cidadania, ou então está a trair o seu papel democrático. Uma peça sobre poliamor não precisa de tratá-lo como algo melhor ou superior, nem precisa de endossar a sua prática de forma alguma. Mas, ao mesmo tempo, tratar temas como poliamor ou questões LGBTQIA+/MOGAI como questões de ‘estilo de vida’, ou em perspectiva ‘prós e contras’ (não no sentido de identificar problemas dentro destes grupos, mas no sentido de ser contra estes grupos) é fundamentalmente trair a missão do jornalismo, e recusar o reconhecimento político destes temas. Ninguém tem o direito de ser contra a homossexualidade, ou contra o poliamor, embora toda a gente tenha o direito de não ser homossexual ou poliamorosa. Isto quer dizer que, no contexto do pedido de entrevista, x jornalista deve saber e conseguir posicionar-se politicamente face à questão, lembrando sempre que “the personal is political“. Tal passa por fazer um esforço por estabelecer credenciais próprias, explicar o porquê de estar a fazer a peça, mostrar trabalhos prévios que estabeleçam a credibilidade de quem pede a entrevista para trabalhar com temas de Direitos Humanos e de Cidadania numa perspectiva política (e não a credibilidade de trabalhar com fait divers  ou outra categoria de notícia).
  6. Elaborar, apresentar e respeitar claramente as condições de produção da peça – As pessoas que fazem as peças jornalísticas não têm controlo sobre todos os elementos do produto final, mas isso tem que ser reconhecido à partida, e negociado claramente com as pessoas que decidem participar nas entrevistas. O problema não é tanto a falta de controlo que existe, ou as revisões editoriais a posteriori, mas a falta de sensibilização que é feita. Além disso, é fundamental criar um processo negocial com as fontes sobre quais são as responsabilidades de cada uma das partes e respeitar esses compromissos. Os compromissos podem passar por a entrevista ser gravada, por haver certos tópicos que se combina à partida que não serão abordados na entrevista, por garantir anonimato, por ter o direito de ver o texto antes de ele ser publicado para garantir que não há incorrecções factuais gritantes (antigamente existia toda uma sub-classe de pessoas dedicadas a isto, xs fact-checkers; na sua ausência, são xs jornalistas que têm de ter esse cuidado e responsabilidade; pessoalmente, perdi a conta a quantas pessoas tinham a idade errada, profissão errada, e mil e uma outras coisas em peças em que participei, não por causa do “mau jornalismo”, mas por causa das culturas contemporâneas do jornalismo).
  7. Reconhecer as próprias limitações – Não existem reportagens perfeitas, nem entendimentos perfeitos, e quem trabalha em jornalismo precisa de estar consciente disso. Se estão incluídas pessoas, na peça, que são especialistas na área a ser abordada, é importante mostrar-lhes o texto para perceber se tem ou não alguma falha conceptual de fundo. Aqui é comum ouvir a crítica de que tal prática (bem como a do ponto anterior) mina a isenção jornalística. Mas é um equívoco: o jornalismo não existe para fazer valer a voz autoral de quem escreve, mas para promover uma cultura de cidadania democrática e plural. O importante não é respeitar a santidade dx autorx-jornalista, mas respeitar o direito do público a uma informação de qualidade. E uma pessoa que trabalha em jornalismo e não domina na totalidade um dado tópico – algo perfeitamente normal e aceitável – pode e deve contar com a colaboração de quem domina esse tópico para impedir que definições erradas, falsas equivalências, uso incorrecto de terminologia científica e outros problemas afins passem para o domínio geral e sejam tomados como ‘verdade’. A construção de uma notícia é um fenómeno por natureza colaborativo. O apelo aqui é a que se torne esse processo colaborativo mais transparente e horizontal, mais democrático. Há que estabelecer aqui uma diferença fundamental: isto não é o mesmo que dizer que então o político X também deve ter privilégios de ‘lápis azul’ sobre tudo o que o envolva – nada disso. É aqui que entra novamente o ponto 1 – não estamos a falar de pessoas com poder social e económico que estão com medo de ficar mal-vistas, estamos a falar de pessoas geralmente em situação de fragilidade social relativa, e que estão a tentar falar enquanto grupo minoritário. A disparidade de poder entre jornalistas e minorias é incomparavelmente maior do que entre jornalistas e políticos. Essas dinâmicas de poder devem ser levadas em conta, e x jornalista deve fazer tudo ao seu alcance para garantir que as informações veiculadas são correctasinformativas – o que nada tem que ver com sonegar informação que possa ser desvantajosa para alguém que participe numa peça jornalística, ou muito menos tentar-se forçar x jornalista a só escrever coisas boas e positivas sobre o tema. Os moldes deste processo devem ficar determinados antes de o próprio momento da entrevista começar, tal como se diz no ponto 6.
  8. Reconhecer que as fontes não devem nada e que o jornalismo não lhes está a fazer um favor – Pode parecer que xs jornalistas estão a fazer uma espécie de ‘favor’ às pessoas activistas que participam em reportagens, e isso parece gerar um certo sentido de entitlement; na verdade, o contrário seria mais verídico, uma vez que existe extracção de mais-valia, e que é obrigação do jornalismo a garantia da pluralidade democrática. Já vi jornalistas a ficarem irritadxs porque eu, ou outra pessoa, não quis dar uma entrevista. Já tive jornalistas a pontificarem, perante mim, sobre o quão importante é falar com jornalistas (!!). Já vi jornalistas a terem atitudes que roçam o assédio (em sentido não-sexual!) – ‘Vá lá, vá lá, vá lá’. Novamente, isto não é um defeito profissional desta ou daquela pessoa, faz parte da cultura jornalística do momento. Que é como quem diz, é uma atitude considerada aceitável. Mas não é. Repitam comigo: ‘Não é Não!’. Isto vale para a agressão sexual e para as SlutWalks, mas vale também para o resto das nossas interacções sociais, e as profissionais não ficam de fora. Respeitem um “Não”, lembrem-se de todas as coisas neste post que podem estar por detrás desse não, e acima de tudo não coloquem a originalidade autoral jornalística acima do respeito pelas pessoas entrevistadas. Quantas vezes já ouvi que era preciso fazer a coisa X ou Y porque “assim a peça fica melhor”!… A peça pode ficar “melhor” de acordo com um conjunto de critérios, e pior de acordo com outro. O jornalismo está cada vez mais acometido de capitalismo – quantxs mais jornalistas medirem o “fica melhor” pelo número de clicks gerados, pior estamos.
  9. Ter em especial atenção as fontes “especializadas” – Uma pessoa com formação em Sociologia não é especialista em tudo o que pode ser estudado nesse campo, uma pessoa com formação em Psicologia idem. É importante recorrer a especialistas que tenham algum background sujeito a revisão de pares no tópico específico que está a ser tratado; a maior parte das pessoas com especialização em Sociologia da Família não poderiam dizer senão generalidades sobre não-monogamias, porque as não estudaram directamente. O mesmo sobre questões LGBTQIA+/MOGAI: não é por uma pessoa ter feito um estudo junto de uma população lésbica que vai, por exemplo, estar capacitada para comentar questões sobre assexualidade, a não ser nos termos mais generalistas. Infelizmente, muitxs ‘especialistas’ são contactadxs não pelo seu CV, mas pela rapidez e facilidade de acesso (mais uma vez, culturas do jornalismo, não “mau jornalismo”), o que gera situações em que uma peça de qualidade acaba a ser comentada por alguém que está ideologicamente contra isto ou aquilo. Ideologicamente aqui querendo dizer “sem trabalho académico ou científico relevante que prove as asserções feitas”. Também é preciso voltar a falar aqui do ponto 5: não é jornalisticamente responsável apresentar, por exemplo, umx ‘especialista’ que é contra a homossexualidade numa peça sobre esse tema, mesmo que a seguir se apresente alguém ‘a favor’. A ideia de ter pluralidade na cobertura jornalística não pode de forma alguma ser confundida com o uso do jornalismo para divulgação de discursos de ódio e de atropelos aos direitos de cidadania alheios, ainda para mais legitimados com a chancela ‘especialista’. Quanto mais desconhecido do público é o tema, mais rapidamente se encontram pessoas irresponsavelmente dispostas a falar sobre o que não sabem, mas convencidas que sabem – e é aí que um trabalho de preparação adequado, verificação de CVs das fontes em questão, e outras diligências, são fundamentais. Já tive pedidos de entrevista que me foram dirigidos pessoalmente porque sabiam que eu ‘falava sobre poliamor’, mas de pessoas que estavam convencidas que eu era sexólogo, psicólogo, ou afins. Digamos que encontrar a minha área de estudos não é difícil, mas a falta de credibilidade que um ‘deslize’ desses provoca pode ser muito difícil de sanar.
  10. Fazer o seguimento pós-publicação – A recolha de material sobre reacções da comunidade representada, e sobre as pessoas representadas, é fundamental para uma avaliação auto-crítica do trabalho efectuado. Não se trata de procurar elogios ou de atirar pedras. Trata-se de uma atitude proactiva que tem como objectivo melhorar o trabalho jornalístico de quem o faz, e também melhorar o trabalho de activismo social de quem o faz. Se alguém se quiser afirmar como jornalista num determinado ramo ou tópico, terá de fazer este trabalho (de humildade) de perceber, aturadamente, o que poderia ter corrido melhor, e em que pontos é que as expectativas de fontes e de jornalistas divergiram para, de uma próxima vez, o trabalho poder ser efectuado de forma mais transparente. A ideia de “responsabilidade social e profissional” necessita de levar em conta a própria definição da palavra “responsabilidade” – que é ‘responder perante’. Quem faz jornalismo sobre questões de Direitos Humanos e de Cidadania, precisa de o fazer com a noção de que tem que responder perante o público em geral, mas também perante aqueles grupos minoritários que estão em situação de vulnerabilidade social – democrática – na medida em que as culturas do jornalismo têm (e isto está mais que estudado) uma propensão muito grande para disseminar e reforçar as visões hegemónicas e vigentes (e portanto discriminatórias, anti-democráticas, abusivas) sobre temas considerados ‘inferiores’.

 

Não vejo este texto como o fim – espero que seja o princípio de uma maior conversa sobre culturas do jornalismo, sobre responsabilidade social, sobre como trabalhar em conjunto com, e não contra. Por favor – mandem as vossas sugestões para melhorar e apurar este texto. Obrigado.

Próximas actividades

novembro 9, 2015

No fim desta semana irei estar no 9º SOPCOM, com duas apresentações diferentes:

 

A primeira tem que ver com o meu trabalho de doutoramento, enquanto que a segunda tem que ver com o projecto que tenho vindo a desenvolver, de forma exploratória, com a Mafalda Mota, e ao abrigo do qual já apresentámos alguma informação (como aqui).


 

Durante as próximas semanas, irei também participar noutro tipo de actividades – aulas em que sou convidado a dinamizar uma sessão sobre um tema em particular. Assim, irei ao ISCTE a convite de Pedro Pereira Neto falar sobre Media e Opinião Pública; irei à FCSH a convite de Susana Valdez falar sobre género na linguagem e a sua importância para a área da tradução; irei de novo à FCSH a convite de Jorge Martins Rosa falar sobre o cyborg e sobre cibercultura. Parte destas iniciativas são repetições de eventos que já tiveram lugar em anos passados mas, como sempre, há algo a ser acrescentado ou alterado para manter o dinamismo dos conteúdos (mais informações aqui).

 

Entrevista no Correio da Manhã / Revista Domingo

novembro 1, 2015

Foi publicado a 1 de Novembro uma entrevista comigo e com a Rosinha, na revista Domingo do Correio da Manhã. Comprem e leiam!

Open Mind – Open Heart: Artigo na GQ

outubro 21, 2015

Saiu recentemente um artigo na GQ sobre questões de género e sexualidade junto dxs jovens portugueses, onde surjo citado.

Infelizmente, nem sempre é possível conseguir passar todos os detalhes que se pretendem e o trabalho de edição jornalística arrisca-se a mutilar algumas frases e a alterar o seu sentido. O excerto abaixo é um excelente exemplo disso: dá a sensação que estou a dizer algo absolutamente horrível (a validar a ideia de que homens gay são efectivamente reprodutores de um “papel feminino”) quando, na verdade, a conversa estava a ser, naquele momento, em torno dos estereótipos sociais criados pela sociedade patriarcal e machista que faz com que aconteça o mesmo com um casal gay. Este “mesmo”, aqui, tem que ver com o falocentrismo patriarcal visto enquanto agressão e poder, e da ligação entre sexualidade e género na discriminação homofóbica.

 

Espero que da próxima vez possa correr melhor!