Aula de Cibercultura 2013

Como tem sido tradição, o Prof. Dr. Jorge Rosa convida-me, todos os anos, para leccionar uma aula no seu seminário de Cibercultura, do Mestrado em Ciências da Comunicação (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - UNL). Encontra-se noutra página a Aula de Cibercultura 2011 e aqui a Aula de Cibercultura 2012.

O tema é o mesmo - o cyborg -, mas os conteúdos vão-se alterando e adaptando. Na minha abordagem, cruzo a figura do cyborg com a teoria queer, através do dildo, rematando com a ligação entre todas estas coisas e as micro-narrativas da cidadania da intimidade. Este ano a tónica foi colocada no questionar da suposta separação entre corpo e máquina, e na univocidade de cada um dos conceitos.

Durante a aula são mostrados excertos dos filmes The MatrixeXistenZCrash Pad e da série de animação japonesa Serial Experiments Lain.

Este ano foi também feita referência à instalação "Where does your body start?", de Ann Antidote.

Abaixo podem ouvir o registo completo da aula (cerca de 2h30m!). Avisa-se que alguns dos conteúdos poderão ser perturbadores, dado o seu carácter explícito em descrições de cariz sexual ou de violência. Pode também ser consultado um pdf com a bibliografia principal para a aula aqui.

 

 

 

 


Série de aulas de Cibercultura

Como tem sido tradição, o Prof. Dr. Jorge Rosa convida-me, todos os anos, para leccionar uma aula no seu seminário de Cibercultura, do Mestrado em Ciências da Comunicação (Faculdade de Ciências Sociais e Humanas - UNL). Encontra-se noutra página a Aula de Cibercultura 2011.

O tema é o mesmo - o cyborg -, mas os conteúdos vão-se alterando e adaptando. Na minha abordagem, cruzo a figura do cyborg com a teoria queer, através do dildo, rematando com a ligação entre todas estas coisas e as micro-narrativas da cidadania da intimidade.

Durante a aula são mostrados excertos dos filmes The MatrixeXistenZCrash Pad e da série de animação japonesa Serial Experiments Lain.

Abaixo podem ouvir o registo completo da aula (cerca de 2h30m!). Avisa-se que alguns dos conteúdos poderão ser perturbadores, dado o seu carácter explícito em descrições de cariz sexual ou de violência. Pode também ser consultado um pdf com a bibliografia principal para a aula aqui.

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Panel "Queering Communication and Media Studies"

 RATIONALE:

The Queering Communication and Media Studies aims at introducing to the field of Communication and Media Studies both theoretical approaches and applied case-studies inspired by Queer Theory, which, to a large extent, is still in its onset at national level. Born out of interdisciplinarity and multidisciplinarity, very much like Cultural Studies and Communication and Media Studies, Women’s Studies, Feminist and Gender Studies and Gay and Lesbian Studies, Queer Theory has open the path to extremely productive, insightful, groundbreaking methodological approaches and lines of research that have been earning due recognition in academe and the scientific community at large. The vast width of the scope of Communication and Media Studies provides for an immense field of research objects and topics, covering the media, the arts, the specific areas of psychology, sociology, anthropology, history and technology of communication, to which an entire array of analytic tools and theoretical notions inspired by Queer Theory can be applied. The papers presented in this symposium all testify to this, extending from an exam of the visibility of BDSM in popular culture and its coverage by the press, an inquiry on the ambivalence of media images of Portugal both as bearer of progress and modernity and as a backward catholic country concerning the portraying of the gay couple in press and TV debates, and the deconstruction of stereotyped ways of portraying both masculinity and femininity in costumes in ethnographic cinema from the standpoint of the intersection between queer theory and fashion theory.        

CHAIRS – António Fernando Cascais and João Manuel de Oliveira

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Feminismo e o combate ao privilégio, ou A arte de fazer perguntas incómodas

O duplo padrão sexual – a ideia de que aquilo que é permitido ou desejável num homem, é condenável numa mulher – é uma das mais frequentes expressões de desigualdade e discriminação de género, e também uma das mais normalizadas. Foi possível ver essa normalização quando, no ano passado, quem se insurgiu contra o piropo foi insultado e desconsiderado, mas é também possível ver isso quando, tão frequentemente, a aparência, roupas e comportamentos relacionais ou sexuais de mulheres são tópico de conversa e condenação, de uma forma que não afecta os homens na mesma medida.

Infelizmente, este tipo de ataques e comportamentos não vem apenas de um qualquer estereótipo de pessoa “mal-formada” ou “mal informada” – muito boa gente, com consciência política para vários factores de justiça social, pode frequentemente ser vista a sair-se com afins disparates que, frequentemente, radicam na aparente indisponibilidade para fazer duas coisas fundamentais dentro do feminismo: colocar em xeque o nosso próprio privilégio e articular explicitamente a interseccionalidade dos sistemas de opressão.

Este último elemento, em particular, tem (também) que ver com uma reflexão sobre as diferentes escalas a que a opressão e a discriminação podem acontecer, e como diferentes sistemas de opressão estão, na verdade, ligados de forma interdependente. Assim, e para dar um exemplo, não é realmente possível fazer uma crítica completa do machismo presente no duplo padrão sexual (ou, sequer, da própria construção de género sobre o que é ser-se “homem” ou “mulher”, já para nem falar nas identidades que extravasam este binómio), sem falar da heteronormatividade deste modelo. Em acréscimo a isto, não é realmente possível fazer uma crítica à heteronormatividade sem nos dirigirmos, também, à mononormatividade subjacente. (A lista de implicações não terminaria por aqui: idade, neurotipia, funcionalidade corporal, questões raciais e de classe económica, entre outras, poderiam livremente acrescentar-se.)

Logo se começam a ouvir vozes: “então mas qual é o problema de eu ser heterossexual?”, “então mas qual é o problema de eu ser monogâmicx?”. Reacções típicas de quem, voltando ao primeiro ponto, se esquece de pôr em xeque o seu próprio privilégio ou a falta de reflexão sobre um determinado assunto. Vejo isso frequentemente ao debater sobre poliamor ou outras formas de não-monogamia consensual: quando se chama a atenção para o facto de que a monogamia traz consigo, na nossa sociedade, uma série de privilégios a vários níveis, e que historicamente a monogamia está associada à necessidade de controlar (economicamente e corporalmente) as mulheres, dentro de um sistema patriarcal, muita gente vê nisso um ataque à sua forma de viver, como se, subitamente, ser-se monogâmicx fosse errado ou retrógrado.

Não: a crítica à monogamia-enquanto-instituição – a crítica à mononormatividade enquanto estrutura de funcionamento social com consequências pessoais e sociais operativas tanto a nível micro como a nível macro – não é uma farpa a quem está numa relação monogâmica, tal como criticar a heteronormatividade não é mandar farpas a quem está numa relação heterossexual. Trata-se, isso sim, de chamar a atenção para os privilégios de ocupar uma determinada posição (ou conjunto de posições) e do que isso implica para quem não tem acesso a esses mesmos privilégios. Trata-se de desnaturalizar experiências e vivências, praticar um pouco de empatia e de recusar, terminantemente, uma frase que vejo usada vezes demais: “Cada um que viva a sua vida, e pronto”.

Esta frase, ainda que tendo pretensões positivas, e apelando ao fim da discriminação, pressupõe igualdade ao mesmo tempo que trabalha contra ela. É o resultado de se pegar numa espécie de ideal utópico, ou de objectivo máximo (a possibilidade efectiva de cada pessoa viver a sua vida, livre de pressões e constrangimentos sociais vários), e o usar como se esse ideal fosse aqui e agora real. Tomar esta posição é esquecer o privilégio e a interseccionalidade, é esquecer que nem toda a gente tem a liberdade de viver a sua vida livre das influências alheias, e que não basta desejar que assim seja para isso acontecer. É indispensável analisar os sistemas de poder, os privilégios e as discriminações e reflectir seriamente sobre como aquilo que nós fazemos também contribui para manter o actual sistema de coisas.

Eu, como homem cisgénero, não posso fazer de conta que não contribuo, ainda que involuntariamente, para a manutenção do sistema binário de sexo-género, quanto mais não seja, pelo facto de que pareço ser uma “prova” de que sexo e género são inseparáveis e estão sempre alinhados, ainda que isso não possa estar mais longe da verdade. Da mesma forma, a quem segue padrões hetero-mono-relacionais, levantam-se as perguntas: “de que forma contribuo eu para o privilegiar da hetero-monogamia?”, “o que posso eu fazer para contrariar a hetero-mono-normatividade?”, “que tipo de hetero-monogamia pratico eu, e com que dinâmicas de género?”. É esta uma das funções centrais do feminismo: ensinar a fazer perguntas dolorosas e incómodas.

 

In  Comemorações do Dia da Mulher: Colectânea de Textos sobre Feminismo e Igualdade de Género, pp. 2-4. AEISCTE-IUL.


Referência

Cardoso, D. (2014). Feminismo e o combate ao privilégio, ou A arte de fazer perguntas incómodas. In Comemorações do Dia da Mulher: Colectânea de Textos sobre Feminismo e Igualdade de Género, pp. 2-4. AEISCTE-IUL.

Portuguese youngsters, new media and sexuality – information, activism and pleasure-seeking experiences

Authors

Daniel Cardoso (FCSH - UNL / ECATI - ULHT)

Cristina Ponte (FCSH - UNL)

 

Abstract

This research, conducted in the context of a PhD thesis, tries to extend the notion of “sexualized usages of (new) media” beyond the tropes of pornography and sexting, by also taking in consideration the search for information on sexual and reproductive health, as well as online forms of activism and networking. Drawing from a snowball sample of about 180 Portuguese youngsters between the ages of 16 and 19 years old that responded to an online survey spread through Facebook and also through several NGOs, we analyze the similarities and differences between genders in how they interact with these technologies, as well as to how they view the importance of both sexuality and sexual usages of new media in their lives. Preliminary results of the quantitative part of this research point to how gender impacts youngsters’ lives by generating different modes of usage of new media, which means that similarities and differences coexist. Results regarding the usage of the internet and mobile phones to exchange sexual messages, and to access fora, sexual content and health/sexual information will be explored. These results will be presented alongside existing international research, and read in the context of Foucault’s work on the sexuality dispositif, and the current debate about sexualization (Smith & Attwood, 2011) and pornographication (Smith, 2010), arguing for a more nuanced view of the interactions between media and its users (McKee, 2005; 2007; 2009; 2010; 2012) and against simplistic models of media effects (McKee, 2009). These results hope to point out the need for a more integrated approach to what sexualized means, beyond the articulation of media panics over sexuality and youngsters.

Keywords: sexualization, pornography, new media, youngsters, sexting, Foucault

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