Reflex(ã)o nas sombras

Tive, há alguns meses, uma interessante conversa com uma pessoa de origem étnica não-ocidental. Essa conversa foi, nem de propósito, sobre a utilização da palavra “escravatura” em contexto BDSM. De acordo com ela, o uso da palavra demonstra um certo desrespeito cultural e o abuso de um privilégio branco e ocidental.

Esta é uma crítica válida. Não segue dela, porém, que se deva simplesmente abandonar a palavra – antes, motiva-nos a pensar criticamente sobre o seu uso. Este número da revista é dedicado a pensar a questão da escravatura – nas suas várias formas, mais e menos subtis, mais e menos agressivas, mais e menos criadoras de sofrimento. Então, para quê vir falar de BDSM, de práticas sexuais, de práticas de prazer? Dito de outra forma: não se está, com este artigo, a confundir as coisas, a menosprezar o peso e a importância da escravatura enquanto problema sócio-político?

Pretendo demonstrar que não. Como rede de poder que é, o BDSM possui, quando encarado reflexivamente, um potencial de desconstrução, catarse e análise que importa olhar mais de perto.

 

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Poliamor: género e não-monogamia na Internet

Fernando Cascais

FCSH – UNL

Daniel Cardoso

FCSH – UNL / ULHT

 

Resumo / Abstract

Poliamor – uma identidade de relação onde vários relacionamentos amorosos e/ou sexuais podem ter lugar simultaneamente, com o consentimento informado de todas as pessoas envolvidas. Como uma identidade recente, o poliamor está ainda a tentar estabelecer um lugar dentro do campo da alteridade sexual e de intimidade. Como uma forma não-hegemónica de performar relacionamentos, o poliamor coloca-se contra discriminações sexuais e de género, sendo composto por uma forte base feminista e, mesmo, queer. Mas até que ponto ocupa a questão do género um lugar cimeiro nas discussões sobre o tema, no discurso poliamoroso? De que forma é que a preocupação por uma maior igualdade de género (ou pela irrelevância do género) está presente, ou não, quando as noções de poliamor são apresentadas a outras pessoas? A partir do trabalho de feministas como Gayle Rubin e de uma perspectiva foucauldiana sobre a construção da identidade, esta comunicação procura problematizar o género tal como ele surge nos e-mails da mailing list “alt.polyamory” (a primeira sobre o tema). A pesquisa que lhe subjaz parte da análise das conversações iniciadas por recém-chegados à mailing list durante o ano de 2009, numa tentativa de compreender os processos identitários de aculturação que têm lugar entre a comunidade estabelecida e os neófitos. A pressuposição de uma igualdade de género dentro do discurso poliamoroso apresenta-se como um desafio específico desta análise – ao mesmo tempo, o feminismo está presente (como sub-texto) mas aparentemente ausente (como texto). A presente comunicação procura mostrar que este feminismo como sub-texto influencia a representação do poliamor e da criação de uma ética poliamorosa, bem como a sua relação com práticas de género e sexuais que ocorrem no contexto de uma sociedade hetero-mono-normativa e patriarcal; o género é construído e desconstruído, e o seu papel na comunicação é genderizado mas também mutável, ocupando assim um lugar representacional dúplice.  

 

Apresentação na Conferência

(Ir)racionalidades da diferença sexual – manifestações genderizadas da esfera pública online no fórum ex aequo

Daniel Cardoso

FCSH-UNL / ULHT

Inês Rôlo Martins

CICANT, ULHT

 

Resumo / Abstract

No contexto do projecto de investigação “Envolvimento Cívico Feminino Online – Redefinindo a Esfera Pública”, este trabalho procura entender de que forma a internet vem possibilitar a expressão do discurso das mulheres, revitalizando a esfera pública habermasiana, ainda que não sob a sua forma clássica. A centralidade desta investigação marca-se pela compreensão das potencialidades das novas tecnologias na obtenção de uma sociedade mais igualitária, capaz de fornecer voz a quem frequentemente não a tem, capaz de albergar até formas específicas de utilizar os novos media.

Tomamos como ponto de partida as reflexões de L. Dhalberg e Susan Herring, e tendo em conta as críticas às concepções de esfera pública habermasiana de Nancy Fraser e a ideia de democracia comunicativa de Iris Marion Young, o objectivo deste trabalho é compreender como é que, nas conversações do fórum português da associação LGBT ex aequo, se (não) manifesta na prática o ideal de uma esfera pública online. Ao utilizar as threads mais comentadas do ano de 2010, poderemos ver se os tópicos mais mobilizadores contêm os marcadores da comunicação argumentativa racional típica, como definidos por Habermas e, depois, actualizados no campo dos novos media por Papacharissi. Será a conversação principalmente dominada por processos argumentativos racionais conducentes à obtenção de uma forma optimizada de acção social, política e pessoal? Haverá alguma estrutura ou postura argumentativa dominante por entre as utilizadoras do género feminino, que se distinga dos utilizadores de género masculino? Como é que a experiência da não-heterossexualidade no fórum ex aequo se compara com outros estudos sobre a mesma temática (e.g.: Rak, Abreu)?

Recorrendo ao método de Análise de Conteúdo assistida por computador (utilizando o programa NVivo), procuraremos apresentar as tendências e temas principais neste fórum temático, que procura agregar pessoas interessadas nas questões LGBT, bem como caracterizar as estruturas argumentativas mais recorrentes. Será então necessário compreender como é que o recurso a processos de intertextualidade e legitimação discursiva através de uma abordagem biologizante das identidades sexuais e de género interage com o funcionamento do dispositivo de sexualidade foucauldiano. Se, como Gayle Rubin, considerarmos que o sistema de construção de género é também um sistema de construção de sexo, é necessário então ler estes resultados essencialistas à luz da posição pós-feminista, e de como também esta contribui para o reforço do discurso patriarcal, heteronormativo. Os recursos retóricos envolvidos permitem então a legitimação do trabalho identitário levado a cabo no fórum, potencialmente à custa do questionamento racional das informações apresentadas, elidindo mesmo diferentes experiências de género (e, portanto, diferentes horizontes discursivos) numa visão homogeneizante das sexualidades não-normativas – visão essa que incorre no risco de, ela mesma, se tornar uma outra normatividade.

 

Palavras-chave: Esfera pública, internet, LGBT, género, fóruns

 

Apresentação na Conferência

 

(em conjunto com a apresentação de Inês Rôlo Martins)

Poliamor - as comunidades do meme

Daniel Cardoso, 16422

2009

Seminário Cibercultura

 

Uma introdução possível

            Vamos neste trabalho tentar desenhar uma possibilidade de percurso que possa unir elementos aparentemente diferentes – o poliamor, a ideia de meme e as comunidades on-line. Mais especificamente, o que importa aqui é como poderemos pensar o poliamor em termos do vocabulário da Cibercultura – como meme. Por fim, uma revisão ao conceito de comunidade, comunidade virtual e a sua crítica serão tentados, de forma a estabelecer uma terminologia consistente e que permita analisar, num momento posterior, o fenómeno.

            O objectivo é precisamente tentar clarificar em que contextos e de que formas é possível realizar uma leitura dos acontecimentos em torno do surgimento da palavra “poliamor” e das suas consequências tecno-sociais. Num paradigma de constante recriação do sujeito pelo sujeito dentro das lógicas das tecnologias do self  que Foucault, entre outros, analisaram, as consequências em torno desta palavra são variadas e necessitam que se compreenda qual o papel que a mediação tecnológica desempenhou no processo. Isso implica perceber a sua génese, a sua própria identidade dentro e fora do contexto da cibercultura, bem como esses mesmos dois elementos para os seus efeitos.

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