Poliamor - género e feminismo, ausências presentes

Autores

CASCAIS, António Fernando; CARDOSO, Daniel - FCSH - UNL

Abstract / Resumo

Poliamor – uma identidade de relação onde vários relacionamentos amorosos e/ou sexuais podem ter lugar em simultâneo, com o consentimento informado dos envolvidos. Esta recém-formada identidade (que data de 1990) não se encontra marcada por uma psiquiatrização ou medicalização prévia, embora não seja, de todo, a primeira vez que se constitui uma forma de nãomonogamia responsável. Como uma forma não-hegemónica de performar relações, o poliamor coloca-se contra discriminações sexuais e de género, sendo composto por uma forte base feminista e queer. Mas até que ponto a questão do género é central neste discurso? Como é que a preocupação por uma maior igualdade de género está presente, ou não, quando as noções de poliamor são apresentadas? A partir do trabalho de autores feministas e de uma perspectiva foucauldiana sobre a construção da identidade, procura-se problematizar o género tal como ele surge nos e-mails da mailing list “alt.polyamory”, a primeira que surgiu sobre o assunto e um dos pontos de origem da própria palavra-identidade. A pesquisa parte da análise de conteúdo e discurso das conversações iniciadas por recém-chegados à mailing list durante o ano de 2009. A presente comunicação procura mostrar como a construção ética de um sujeito abstracto pode constituir-se como um problema para a expressão das questões de género envolvidas no negociar de dia-a-dia de relações íntimas e/ou sexuais, e como o feminismo pode, afinal de contas, apresentar-se como sub-texto que influencia a representação do poliamor e da criação de uma ética poliamorosa, mesmo quando não se encontra explícito na sua formulação. Isto permite uma construção e desconstrução do género, a reflexão sobre o seu papel no próprio acto da comunicação interpessoal, ocupando assim um lugar representacional dúplice - visível mas invisível, actuando mas não sendo reconhecido. A questão a problematizar é, então, se se pode construir um pensamento e uma atitude feminista na ausência do feminismo como locus explícito de discurso.

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Um Ensaio Sobre "The Matrix"

Introdução

O filme “The Matrix” é composto por toda uma panóplia de referências culturais, religiosas, filosóficas e políticas. Várias ideias se entrelaçam no filme, e muitas vezes a leitura que pode ser feita depende principalmente de quem a faz, e não do que está contido na própria obra. Ainda assim, tendo em conta a pluralidade de discursos que o compõem, “The Matrix” consegue formar um todo coeso, que dá azo a muita especulação e a pontos de vista completamente opostos.

Normalmente, o âmbito discursivo que se aplica na leitura de “The Matrix” é o da relação dominação/libertação, em que os humanos tentam desesperadamente libertar-se das aparências em que foram mergulhados pelas máquinas. Há uma luta, uma guerra, em que tudo o que é importante é a libertação deste jugo, desta ilusão. As alusões a um “mundo de sonho”Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.-takeout/knol/28ym4t568gr55-3-an-essay-on-the-matrix.html#_ftn1" title="">[1], a um sítio que “não é real” e a habilidades que apenas são possíveis porque “não existe colher” são numerosas ao longo de toda a trilogia, e tudo o que o espectador vê, prima facie, o leva a não duvidar jamais destas mesmas afirmações, especialmente porque elas emanam dos principais protagonistas, muito mais agradáveis e com os quais a audiência se consegue identificar. Acrescente-se a isto que cada um dos filmes tem algo mais a acrescentar ao panorama geral, ou seja, cada um dos filmes tem uma discursividade que aponta para um sub-tema dentro da questão da libertação de que fala a trilogia. Uma análise filme a filme não seria proveitosa, e seria uma forma de reduzir e simplificar as ligações que são feitas, e as explicações que, por vezes, só funcionam retroactivamente. Mais do que isso, para se poder entender em pleno algumas das questões abordadas neste ensaio, será necessário recorrer a outras referências dentro do universo Matrix (como, por exemplo, as várias curtas-metragens que compõem “The Animatrix” e que oferecem um insight muito maior sobre as bases de toda a história) e também de obras que serviram de base à trilogia, como é o caso de “Ghost in the Shell”, um outro filme que aborda a questão da ética aplicada à realidade virtual (mais especificamente, à inteligência artificial ao nível a que é apresentada na trilogia) e também a questão da definição de humano, das suas bases e da possibilidade de cairmos no erro do especismo de cada vez que falamos em racionalidade dentro de um contexto de ficção científica. O que se pretende aqui é a desconstrução da leitura simplificadora de uma relação de dominação, passando para uma revalorização de todas as potencialidades que a Matriz realmente tem para oferecer, da forma como é apresentada na trilogia. Ademais, será possível evidenciar que grande parte da forma como a questão moral do filme está apresentada não se coaduna justamente com aquela que deveria ser a posição das personagens, caso estivessem na posse da verdade.

Uma amálgama de referências culturais

 

 Eis um dos aspectos mais intrigantes da trilogia Matrix, e que lança uma observação curiosa sobre a nossa própria realidade: as referências – tanto religiosas, como filosóficas – são válidas para um sem fim de culturas que, à partida, são tomadas como completamente incompatíveis. Não é esta uma prova que, afinal, a forma de pensar e de construir teologias ou metafísicas se aproxima bastante, independentemente da leitura?

Para além da linguagem cinemática usada (como a oposição entre as cores branca e verde, presente ao longo de toda a trilogia e não desprovida de sentido), é possível fazer uma ponte entre vários pensadores da filosofia – Sócrates, Platão, Kant – ou entra correntes religiosas nem sempre relacionadas – gnosticismo, cristianismo e budismo. Isto para não falar das referências numéricas, que podem mesmo ser relacionadas com algumas teorias pitagóricas e que são de grande importância. Os nomes são outro dos factores que aqui se apresentam como tendo um sentido de interpretação mais profundo; até mesmo pormenores como o nome da nave onde as personagens principais viajavam no mundo real (Nabucodonosor) ou a inscrição por debaixo desse mesmo nome (Mark III, Nº 11 – uma referência a um texto bíblico). Uma rápida passagem por alguns destes significados permitem desconstruir uma parte do discurso religioso de Matrix.

Convém, em primeiro lugar, mencionar os vários significados da própria palavra “matriz”, nos vários contextos em que pode ser aplicada no filme, uma palavra que vem da raiz indo-europeia “Matr”, que “liga a matéria como origem e componente das coisas [...] a matéria para os pré-socráticos era o elemento primordial” (Irwin, 2002); além disso, “o termo “physis”, origem da palavra física, designava a matriz da realidade” (Irwin, 2002). Em primeiro lugar, a matriz é a forma dos comportamentos, o código que faz funcionar o programa que tem esse mesmo nome – nesse sentido, Matriz pode ser entendida num contexto matemático, num contexto programático e informático. Em segundo lugar, pode também pensar-se na matriz – no ventre – feminino, onde os humanos crescem e se desenvolvem. O funcionamento subjacente ao programa cumpre também esta função – Morpheus diz a Neo: “...os humanos já não nascem. Somos cultivados.” A questão é que, enquanto Morpheus apresenta isto como um dado negativo, podemos ver que uma das funções do programa que supostamente está a escravizar os humanos é a de cuidar desses mesmos humanos, tendo mesmo o cuidado de aproveitar os humanos mortos como forma de alimentar os vivos, numa espécie de habitat perto da perfeição. De facto, todos nós necessitamos de uma matriz, de um background cultural que nos transforme em seres humanos segundo o entendimento actual dessa expressão. Portanto, a substituição da Matriz (o programa) pela Realidade Real (doravante R.R., e em contraposição à Realidade Virtual – R.V.) implica a substituição de uma matriz por outra.

A personagem principal, com dois nomes, tem da mesma forma um duplo significado. Em primeiro lugar, o Agente Smith insiste em chamá-lo de Sr. Anderson. Isso dá-se porque Anderson deriva do grego “andras” (que significa “homem”), juntamente com “son”, “filho”. Anderson é, portanto, o Filho do Homem – um título que Jesus Cristo dá a si mesmo. O seu nick, Neo, é latim para “novo”, e por troca de letras forma também “one” – ele era chamado de “o Tal”Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.-takeout/knol/28ym4t568gr55-3-an-essay-on-the-matrix.html#_ftn2" title="">[2]. Este seu papel de escolhido tem várias significações, consoante a interpretação que se faça. Uma das mais óbvias é a comparação com Jesus Cristo. Tal como ele, a sua vinda foi prevista, e foi necessário um renascer para que o escolhido cumprisse o seu papel. Uma outra é com o budismo, em que Neo é Buda, o iluminado, que atinge o seu estado final e desperta para perceber a realidade por detrás do mundo físico ilusório. Outra ligação se prende com o primeiro nome dele dentro da Matriz: Thomas. Tomás, ou antes, o texto apócrifo de Tomás, é um dos principais escritos para os Gnósticos. Neo pode também ser um símbolo para Sócrates e toda a defesa que ele fazia de procura da verdade. Aliás, os elementos que apoiam estas várias leituras sobrepostas estão um pouco por todo o lado. Por exemplo, no primeiro filme temos a cena com o menino monge e a colher, tipicamente budista; como já referido, a nave tem uma referência a um rei babilónico que aparece na BíbliaEste endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.-takeout/knol/28ym4t568gr55-3-an-essay-on-the-matrix.html#_ftn3" title="">[3] e ao texto bíblico de Marcos 3:11; uma das personagens secundárias tem como nome Apoc (uma forma abreviada de Apocalipse, derivado das crenças cristãs); a principal figura feminina, Trinity, representa a Santíssima Trindade católica; e por aí em diante.

Morpheus, por outro lado, é um deus grego, Morfeu, que controlava o sono dos mortais. Ao mesmo tempo, é também a representação de João Baptista, seguindo a linha cristã, pois vem anunciar a vinda do salvador, Neo. Trinity, por seu lado, é quem primeiro o chama, e é quem preside ao seu renascimento, com o beijo de amor, mostrando que apenas esta qualidade poderia ser a fonte de salvaçãoEste endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.-takeout/knol/28ym4t568gr55-3-an-essay-on-the-matrix.html#_ftn4" title="">[4]. Cypher, a cifra, e uma das personagens mais controversas e enigmáticas do primeiro filme, tem a explicação do seu nome na função que tem – descodificar o código da Matriz – mas também no próprio facto de a sua personalidade ser críptica, insondável. Mais à frente analisar-se-á com mais cuidado toda a polémica à volta de Cypher, tendo em conta que a leitura que ele faz é exactamente a oposta à que a visão dos realizadores apresenta e com a qual o público é suposto identificar-se.

Até mesmo as localizações têm significados. Zion, o nome da última cidade humana, pode em português ser traduzida por Sião, a prometida e celestial morada para crentes cristãos e judaicos.

Alguns dos números que aparecem são também de grande importância. O número do quarto de Neo, no primeiro filme, é o 101. O número um representa o Homem, o seu poder e capacidade, a sua racionalidade. Neo é, como já visto, “the One”, o que literalmente se traduz como “o Um”. Ao mesmo tempo, Carl Jung diz que o um é um dos símbolos unificadores (não esquecer que a Matriz é muitas vezes descrita como sendo um mundo de sonhos e que Jung era psicanalista), sendo que “só aparece nos sonhos, segundo as observações de Jacques de la Rocheterie, quando o processo de individualização já está avançado. O sujeito é, então, capaz de assumir toda a energia do símbolo unificador para realizar em si a harmonia do consciente e do inconsciente, para realizar o equilíbrio dinâmico dos contrários reconciliados, a coabitação do irracional e do racional, do intelecto e do imaginário [...]. A totalidade unifica-se na sua pessoa, a sua pessoa expande-se na totalidade” (Chevalier & Gheerbrant, 1982).

Quando Neo renasce e se torna realmente “o Tal”, o quarto mostrado é o 303. O três representa a divindade, representa também a trindade e a perfeição. É claro que esta referência à trindade é uma referência a Trinity, que é quem o desperta. “Os psicanalistas vêem no número três, com Freud, um símbolo sexual. A própria divindade é concebida na maioria das religiões, pelo menos numa certa fase e sob uma certa forma, como uma tríade, na qual aparecem os papéis de Pai, de Mãe e de Filho.” (Chevalier & Gheerbrant, 1982)

Como anteriormente referido, as duas cores que dominam o filme são o verde da tecnologia da Matriz e o branco puro de Zion, e da nave nas primeiras cenas em que Neo desperta para a RR. De forma curiosa, o verde é “um valor médio, mediador entre o calor e o frio, o alto e o baixo, é uma cor tranquilizante, refrescante, humana.” (Chevalier & Gheerbrant, 1982) Tem, ao mesmo tempo, um valor de natureza, de criação e de cuidado, de nurturing. O branco “é uma cor de passagem, no mesmo sentido em que se fala de ritos de passagem; e é, justamente, a cor privilegiada destes ritos, com os quais se operam as mutações do ser, segundo o esquema clássico de qualquer iniciação: morte e renascimento.” (Chevalier & Gheerbrant, 1982) Não é isto que ocorre com Neo, quando ele passa da Matriz (que, lembremos, era quem fornecia os cuidados básicos a todos os humanos) e sai por uma metáfora do canal de parto para um mundo de um resplandecente branco que lhe fere os olhos que nunca usou antes?

De que forma servem estes elementos o propósito de auxiliar a pessoa que vê os filmes? Bem, o discurso com várias “camadas” de significação desta trilogia permite uma quase universalização da mensagem que veicula. Ao se tornar um discurso tão moldável que cabe dentro de várias interpretações completamente diferentes, torna-se mais fácil fazer passar uma mesma mensagem. Qual o elemento agregador de todos estes significados? A tecnologia. A tecnologia serve aqui como forma de mediação e de unificação de todas essas diferentes formas de ver o mundo. Portanto, este cenário distópico do futuro recicla muitas ideias de civilizações diferentes, para mostrar o seu paralelismo, e até que ponto a humanidade tem respostas semelhantes para os mesmos problemas, algo que só é possível notar quando uma obra como esta trilogia coloca tais factores lado a lado. Transformando todas as questões teológicas e filosóficas num contexto de salvação da humanidade, é possível a agregação de leituras diferentes sobre o real. Isto espelha a própria união que se vê nos filmes. Toda a humanidade (desperta) está unida para um único propósito, mesmo que existam discordâncias sobre a realidade de certas profecias. A leitura que se faz da questão da profecia – e que será depois tratada com mais cuidado – é um compromisso entre os factos próprios de um contexto de ficção científica que requer que toda a explicação seja racional e a crença irracional que está na base das esperanças de salvação, de uma salvação transcendente, apoiada numa mística insondável e inquestionável.

Uma Realidade Virtual sui generis

A RV é normalmente, no panorama actual, uma maneira diferente de interagir com o sistema de proibições que nos é imposto, uma forma de podermos exercer a nossa parte mais instintiva, de experimentar o perigo de forma controlada, de fugir à normalização da instituição de uma sociedade e de uma vida sanitizada. O sujeito controla a RV, controla a personagem num ambiente que não tem as mesmas constrições que a RR e identifica-se com essa mesma personagem num processo de transferência que é puramente psicológico. Ao ser a personagem, o sujeito é ao mesmo tempo mais ele próprio, mais livre. A RV prende a atenção pelas possibilidades que oferece e por eliminar sumariamente os principais problemas da RR – os constrangimentos físicos, psicológicos, legais e, acima de todos estes, interpessoais. O discurso que a RV actual pratica é a de uma interacção que permite ao sujeito exercer o seu controlo sobre uma realidade previamente controlada. Ao que se submete à RV, parece-lhe que o espaço virtual é uma selva primitiva e que cabe a ele, o jogador dotado, ou o internauta superior, repor a ordem, exercendo o seu poder. Este aparente paradoxo – a vontade de se expor aos limites dentro de um ambiente controlado – é facilmente explicado se se verificar que põe em jogo e consegue coordenar, de uma forma que a RR não consegue, dois grandes instintos: o de auto-preservação e o de conquista e exploração.
Só que a Matriz é um programa sui generis, e falar em RV neste caso pode ser enganador. A verdade é que o papel desta RV com o sujeito, e a própria forma de relação entre o sujeito e o objecto de mediação (que permite o acesso à RV) é radicalmente diferente, e o acima descrito apenas se aplica muito parcialmente, e em circunstâncias específicas.
O que sucede na Matriz é essencialmente diferente em três aspectos principais: a consciência do acto, a segurança do acto e a mediação do acto.
Em primeiro lugar, o matrixianoEste endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.-takeout/knol/28ym4t568gr55-3-an-essay-on-the-matrix.html#_ftn5" title="">[5] comum não tem consciência que está numa relação com uma realidade que não a física. Enquanto que o comum utilizador da RV sabe que está numa simulação (e deriva desse conhecimento o maior dos prazeresEste endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.-takeout/knol/28ym4t568gr55-3-an-essay-on-the-matrix.html#_ftn6" title="">[6]), o matrixiano não está consciente de que está numa simulação. Para todos os efeitos, aquela imersão completa é a vida quotidiana. O que aqui se anula é o divertimento e a projecção que o sujeito pode fazer na RV a que estamos habituados. Na Matriz, o sujeito não se pode projectar porque já está projectado sem o saber, sem ter consciência das suas actividades como sendo virtuais. É claro que nesta análise têm que entrar outros sujeitos, de forma a mencionar a totalidade do que se verifica no filme e para que se perceba exactamente a diferença entre este segundo tipo de sujeitos e os matrixianos. Refiro-me concretamente aos rebeldes que já saíram da Matriz. Eles sabem que estão a entrar numa RV porque já lá estiveram e já de lá saíram. A sua entrada na RV é voluntária e consciente – esta é portanto a diferença da consciência do acto. Os rebeldes podem, neste ponto, ser perfeitamente comparados aos utilizadores da RV do nosso mundo. Ademais, os rebeldes gozam exactamente do mesmo tipo de controlo sobre certos parâmetros desta RV, coisa que não se verifica com os matrixianos, porque esta possibilidade de “dobrar” as regras da Matriz advém única e exclusivamente da percepção conscienteEste endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.-takeout/knol/28ym4t568gr55-3-an-essay-on-the-matrix.html#_ftn7" title="">[7] de que se está dentro da Matriz.
A segunda diferença está relacionada com a segurança do acto. Neste ponto, matrixianos e rebeldes estão em pé de igualdade (ou quase, já que os rebeldes, por o serem, são activamente perseguidos por uma componente específica da própria RV, enquanto que na maior parte dos casos apenas os matrixianos representam um perigo para si mesmos, excepção feita quando um Agente precisa de trocar de corpo). Enquanto que um utilizador da nossa RV está em perfeita segurança (e, lembre-se o acima dito, necessita dessa segurança para poder desfrutar da RV como uma forma de exercer controlo sobre uma realidade controlada), os rebeldes e os matrixianos estão constantemente em risco de vida. A mente torna os ferimentos reais, a mente torna a morte virtual uma morte real e nada se consegue fazer contra isso. O nível de imersão nesta realidade é total. Mas, como os matrixianos não têm consciência disto, isso não os afasta da RV (nem poderia afastar); e como os rebeldes têm uma missão, também eles se sujeitam ao perigo que a RV representa. Novamente aqui se pode fazer uma aproximação (embora discutível) entre os rebeldes e os utilizadores da RV no nosso mundo: as possibilidades quase infinitas de equipamento e as capacidades aumentadas pela força de vontade – pela consciência – tornam a Matriz apenas ligeiramente mais segura; bem como o facto de se poder sair da Matriz e de essa saída não implicar uma continuidade espacial com a RR que poderia perigar a vida dos rebeldes ainda mais. Mas nada disto se aproxima do conforto de estar sentado em casa, em frente a uma consola ou computador – a posição do utilizador de RV do nosso mundo.
A terceira diferença configura-se como algo que é, aparentemente, simples, mas que, na verdade, se reveste de uma importância capital. É o processo físico de funcionamento que subjaz à Matriz que permite perceber o porquê dos dois pontos abordados anteriormente. A mediação, ou seja, a ligação ente o sujeito e a RV, o meio pelo qual o discurso é conduzido numa relação interactiva, é de uma natureza radicalmente diferente da observada no nosso mundo. No nosso mundo a interacção é maioritariamente física, independentemente se for utilizado um rato, um teclado, um joystick ou um comando de consola. Isto condiciona a forma como o sujeito se relaciona com a RV – o poder do sujeito dentro da RV está à partida directamente ligado à sua destreza física ao nível da motricidade fina e do controlo de reflexos, havendo espaço para que esta relação se fortaleça e consolide pela passagem do tempo. Assim, utilizadores diferentes estarão em estágios diferentes de interactividade por causa do próprio sistema de interface. O interface da Matriz não é físico, é fisiológico. Os matrixianos e os rebeldes não têm algo externo que os ligue à Matriz, eles utilizam os seus próprio corpos para o fazerem. Com isto se anula a distância entre a RV e a RR, já que toda a consciência da pessoa que se liga ao sistema é transferida para o próprio sistema, criando o avatar perfeito. Quando isto acontece, deixa de existir um sujeito que controla uma personagem, e a personagem passa a ser o sujeito. Tudo o que rodeia os matrixianos e os rebeldes dentro da Matriz é efectivamente aquilo de que eles têm consciência. Para exemplificar, um rebelde que esteja dentro da Matriz sabe que tem um corpo na RR, mas não recebe qualquer input desse mesmo corpo – tirando o cérebro, quase que se poderia dizer que, por momentos, o sujeito deixa de ser o seu corpo físico na RR. Em essência, é esta a diferença que explica as outras duas. É também isto que modifica completamente a forma de aprendizagem dentro da RV. Enquanto que, como já mencionado, um jogador no nosso mundo tem que aprender a dominar as técnicas físicas para garantir a sua agilidade na sua RV, no mundo da Matriz, os conhecimentos são adquiridos por upload de informação, e a melhoria é apenas ao nível mental, ao nível da aceitação e do auto-conhecimento – a prova está na frase que a Oráculo destaca a Neo, logo no primeiro filme: Temet NosceEste endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.-takeout/knol/28ym4t568gr55-3-an-essay-on-the-matrix.html#_ftn8" title="">[8]. Não sem ironia, Cynthia Freeland (uma filósofa feminista) diz o seguinte, falando ao mesmo tempo sobre a aprendizagem e o carácter altamente sexual das penetrações necessárias para levar a cabo a ligação fisiológica entre o sujeito e a Matriz:
 
No filme, Neo é tão especial que pode aprender coisas constantemente, quase sem esforço [...]. Conhecimento e habilidades são rapidamente transmitidos aos espertos, merecedores e belos membros da pequena cela de revolucionários de Morpheus, por meio de programação ou upload constante. Isso exige a inserção de um grande plug na nuca de uma pessoa. [...] Neo obviamente se assusta quando o dispositivo conector é inserido no orifício em sua nuca. Com treinamento físico simulado, Neo aprende técnicas, com esforço, transferidas para o seu corpo real [...] (Irwin, 2002)
 
Esta aprendizagem directa quase que toma os contornos de uma gnose, de uma apropriação do conhecimento pela sua recepção em estado puro. Da mesma forma, o equipamento e as armas de que precisam são-lhes fornecidas directamente como experiência para os seu corpos virtuais, contrastando grandemente com os rebeldes na RR, esfarrapados, sujos e com os seus corpos conspurcados pela tecnologia que lhes permite entrar na Matriz.

Merovingian e a Oráculo – destino e causalidade

Um dos problemas mais inquietantes em Matrix é a possibilidade de existir Destino, a possibilidade de que todas as acções já estão pré-definidas e que há um caminho que tem que ser percorrido. A entidade que melhor personifica isto é a Oráculo. Ao longo de todo o filme, e de todas as conversas que ela tem com Neo, há sempre um confronto entre a ideia de existir ou não destino. Neo luta durante todos os filmes contra a existência de um pré-determinismo que retire todo o sentido ao que ele está a fazer, especialmente quando se descobre que, afinal, a Profecia não passa de mais um embuste das máquinas. Porém, no fim, Neo parece mudar de opinião.
Uma outra personagem – outro programa – do Matrix que se coloca do lado oposto do Destino é Merovingian, que fala na supremacia da causalidade. Para ele, não existe um destino já escrito, existem apenas aqueles que compreendem os meandros da causalidade e que, portanto, se conseguem antecipar. Ao conversar com Neo, Morpheus e Trinity sobre o assunto, no segundo filme, ele ilustra a questão dando uma fatia de um falso bolo (que afinal é uma rotina de software) que provoca um orgasmo na mulher que a comeu. Causa e efeito, causalidade. A causalidade parece incompatibilizar-se com o destino porque está dependente de um sujeito de acção, enquanto que o destino é dado aprioristicamente ao sujeito passivo, a quem cabe cumpri-lo, inescapavelmente.
 
Porém, se analisado com mais detalhe, e se juntarmos os pedaços de informação que Merovingian, a Oráculo e o Arquitecto, podemos afinal chegar à conclusão que o discurso posto a circular (e que, note-se, é a base de toda a história, não o parecendo) nada tem que ver com o destino. Estas três personagens reflectem apenas três formas diferentes de encarar a causalidade, que depende, mais uma vez, de um sujeito de acção livre.

Para o Arquitecto, tudo se baseia na regularidade matemática. A previsão que ele é capaz de fazer limita-se apenas a uma forma abstracta de pensamento, e o facto de ele saber o que irá Neo fazer quando eles se encontram e falam numa altura de grandes revelações, deriva apenas do facto de ele conseguir literalmente “ver” as ideias de Neo, ao ler o código que ele projecta para dentro da Matriz, os seus padrões mentais. Essa sala branca, coberta de monitores é a prova de que não existe um destino. Cada uma das imagens é ligeiramente diferente, e mostra uma diversidade de possibilidades – possibilidades baseadas na matemática das reacções que Neo poderia ter. Usando a estrita lógica, que governa parte da existência humana, o Arquitecto conseguiu produzir tudo o que se vê na Matriz, todo o funcionamento daquela superestrutura. Porém, como ele próprio confessa, há uma falha “numa equação de outro modo perfeita”.
Merovingian tem uma grande teoria da causalidade, baseada basicamente em informação. Portanto, ele representa sem dúvida a análise empírica e prima facie da realidade, muito embora filtrada pela visão causal que tanto apregoa durante todo o tempo que aparece. A forma discursiva dele parece excluir e nem sequer aceitar que existem imponderáveis no comportamento das pessoas – logo Perséfone (a esposa) o desengana, ao ajudar Neo e os seus camaradas, provando que nem mesmo Merovingian consegue ter a omnisciência necessária para medir todas as consequências, todas as relações de causa e efeito.

Por outro lado, a Oráculo, apesar da aparente forma mística de se relacionar com tudo o que a rodeia, apesar do facto de o seu discurso ser sempre muito velado e cheio de segundas intenções, parece ser quem melhor «adivinha» as intenções e as acções futuras. Não se trata de uma capacidade telepática (que não pode ter, sendo um programa), mas do facto de o discurso utilizado é uma amálgama dos dois anteriores, com um toque muito próprio de empatia e de sensibilidade para com as emoções humanas, para com a forma de sentir dos humanos. A Oráculo sabe tantas coisas porque não se limita a estar no seu ponto de vista, no seu lugar do discurso. Ela consegue colocar-se no ponto de vista dos outros, consegue perceber as suas motivações, consegue sentir de facto os imponderáveis quase aleatórios, mas que fazem sentido dentro da irracionalidade sentimental dos humanos. Tudo o que ela aparentemente previu foram, na verdade, as consequências de uma análise e compreensão profundas do comportamento humano. Ademais, ao lado do discurso da empatia, existe também uma outra forma que subjaz a muitas das acções da Oráculo.

O discurso dela manipula activamente as outras personagens, levando-as a fazer aquilo que ela mesma antevê – as conhecidas self-fulfilling prophecies, uma forma de ela ganhar respeitabilidade, mesmo depois de se revelar como um programa e de Neo ficar a saber que a profecia era apenas uma forma de conduzir os humanos a agir de uma determinada maneira. Muito embora os seus motivos ulteriores sejam justificáveis, a verdade é que ela não dá ferramentas para que Neo resolva os problemas, ela aponta-lhe um caminho que, à partida, vai condicionar a relação deste com a realidade, levando-o a aceitar a inevitabilidade do caminho que tomava, partindo do conhecimento superior de como Neo iria agir. Tudo aquilo que era para os outros programas uma surpresa constituiu para a Oráculo a finalização do seu próprio plano, roubando em última análise o protagonismo aos humanos. Isto explica também porque é que o Agente Smith, mesmo depois de ter absorvido a Oráculo, se manteve incapaz de realmente predizer o futuro, de perceber “para além das escolhas”. Ela podia sempre ver até um ponto em que existia uma escolha crítica, mas não podia afiançar se a escolha seria a mais provável ou não, nem se limitava a considerar a escolha como algo linear – os erros de Merovingian e do Arquitecto. Além disso, era necessária a Oráculo como “pessoa” completa para perceber e interpretar, não apenas a sua habilidade como programa – o Agente Smith não o conseguiu.

 

 

Realidade e Liberdade – inversão de perspectiva

Qual o principal problema moral por detrás da luta dos humanos contra as máquinas? O facto de que não existe liberdade e de que todos os matrixianos estão a ser enganados, iludidos sobre a realidade. Esta premissa mantém-se ao longo das três longas-metragens, sem que ninguém a questione... A não ser uma pessoa – Cypher. E mesmo assim, fê-lo da forma errada, seguindo uma ideologia errada; além disso, foi imediatamente conotado com o lado errado da justiça e cometeu graves erros em nome do seu próprio prazer. Mas a verdade é que Cypher poderia ter argumentado de uma forma completamente diferente.

A ideia de que os matrixianos estão a ser vítimas de uma ilusão gigantesca e que estão completamente enganados sobre a realidade é, em última análise, absurda. Na verdade, esta interpretação esquece completamente que a expressão RV tem em si a palavra “realidade”. Sim, é um tipo diferente de realidade, mas deixa de ser realidade? É apenas uma alucinação, uma fabricação pura das mentes dos matrixianos? Não! A realidade da Matriz constitui um prolongamento da realidade exterior, não uma falha ou um corte. Como vemos, apoiam-se mutuamente, em simbiose. Não faz sentido que se diga que tudo o que foi vivido na Matriz é falso, e a maneira mais simples de o provar é através de uma constatação auto-evidente. Se tudo o que deriva da Matriz é falso, então todas as pessoas retiradas da Matriz (entenda-se: “todas as personalidades” ou “todas as personas”) são falsas. Neo não existiria como identidade auto-consciente e com uma identificação, um sentimento de self, caso isto fosse verdade – nem ele, nem nenhum dos seus companheiros. Toda a sua construção como pessoas, por mais anti-Matriz que tenha sido, e anti-sistema, foi feita dentro da Matriz, sendo impossível simplesmente descartar tudo o que lá aconteceu. A própria semântica torna impossível que esta ideia faça sentido. Tome-se a outra frase: “sendo impossível simplesmente descartar tudo o que lá aconteceu”. A ser verdade que tudo o que a Matriz produz é uma ilusão, a frase teria de ser a seguinte: “sendo impossível simplesmente descartar tudo o que não-lá não aconteceu”. Se a Matriz é uma ilusão, não pode ser um espaço para o qual as pessoas vão, nem pode ser um sítio onde aconteçam coisas. O que ocorre na Matriz, ocorre efectivamente, ocorre realmente. Todas os requerimentos para a definição de realidade estão presentes: apenas para citar o que poderia gerar mais polémica, é fácil ver que os conceitos e coisas têm um referente, um objecto de base, muito embora os matrixianos não saibam qual a sua verdadeira essência. Porém, da mesma maneira que eles não consegue ver os bits por detrás da sua realidade, também nós não somos capazes de ver os corpúsculos sub-atómicos que constituem a matéria. A verdade é que este ponto é verdadeiramente despiciendo para a noção de realidade que pode aqui ser empregue.

Sobre este assunto, quero chamar a atenção de dois artigos diferentes, que também analisam a possibilidade de afinal existir realidade na Matriz:
 
If the ordinary Matrix dweller has a pain in his damaged foot it’s in his Matrix foot, not in the foot of a body in a vat – a foot that is not damaged and about which he knows nothing at all. […] the people in the Matrix world are not brains in vats any more than we are. They are people who grew up in the Matrix world and their experience of their Matrix body and how to use it makes that body their body, even if another body they can’t even imagine has in its skull the brain that is the causal basis of their experience. […] The Matricians’ beliefs about the properties and uses of their perceived bodies, and of chairs, cities, and the world may be shared and reliable, and in that sense true […]. […] if they claim that our belief in causality is simply our response to the constant conjunctions of experience as David Hume did, or our positioning of universal laws relating experiences as Kant held, then their causal beliefs would be true of the causal relations in the Matrix world. (Hubert & Stephen Dreyfus, 2002)
 
[…] given the reality of a thing, knowing its true metaphysical explanation neither augments nor diminishes its value or its reality. […] for all physical objects, I contend, it is of no value to us if their underlying constitution is ordinary atoms, or computer generated simulation. […] If these things are not “real” in the sense that their underlying constitution is radically other than I had believed, that makes no difference to the value that those things have in our lives. […] none of this implies that I was being deceived about the reality of the object […]. Having a different underlying constitution is very different from saying that things are not real, in the sense of being a mere illusion, as in a dream or a hallucination. (Vasiliou, 2002)
 
Outra das questões associadas ao Matrix é sobre a liberdade. Segundo o que é corrente afirmar-se, os matrixianos não são livres. Foram presos de maneira abjecta e cruel, condenados à escravidão. Porém, não será isto na verdade uma mera parte do discurso contra-revolucionário dos humanos? Sim, é verdade que eles não escolheram serem enviados para a Matriz, mas dentro dela, não existirá liberdade? Vejamos. Como já se concluiu acima, o argumento de que a Matriz é apenas uma ilusão é falso. Portanto os matrixianos ocupam um segmento do Real. Dentro desse segmento do real, que é o mundo deles, que constrangimentos existem? Bem, na verdade existem os mesmos constrangimentos a que todos nós estamos sujeitos na realidade, e a que os rebeldes estão sujeitos na RR. Ademais, se formos avaliar a questão de liberdade pelos constrangimentos (ou ausência deles), vemos que, no cômputo geral, os mais livres são os rebeldes apenas quando dentro da Matriz. Todas as possibilidades culturais e de estilo de vida que estão à disposição dos matrixianos fazem empalidecer as rústicas condições dos rebeldes na RR, e excepção feita a alguma intervenção dos Agentes (que é inevitavelmente culpa do movimento contra-revolucionário humano) todos os matrixianos podem fazer o que quiserem com o mais completo livre-arbítrio. As interacções sociais são também completamente livres, sem quaisquer constrangimentos, para além do óbvio e já confirmado facto de serem relações verdadeiras, em que um humano interage com outro humano. Pode contrapor-se a isto um facto indiscutível: a cada período de mais ou menos cem anos, aparece um Escolhido que força o sistema a fazer reset, tal como o Arquitecto explicou. What seems awful about our enslavement in the Matrix is rather that we have so little control over our futures. […] We want to be politically free.”, diz-nos James Pryor (2003).

Porém, uma vez mais somos obrigados a tentar perceber a origem deste aparente discurso de dominação que as máquinas impõem sobre a humanidade. Este reset existe porque, vez após vez, há tentativas dos humanos de se libertarem da Matriz, tentativas essas que, não obstante, já fazem parte integrante do sistema da Matriz, sendo uma contingência com a qual as máquinas sabem lidar muito bem. Portanto, uma parte da responsabilidade disto é dos próprios humanos. A solução? O terceiro filme da trilogia dá a solução que resolve os problemas de uma vez por todas: desde que os seres humanos tenham a liberdade de escolher se querem ou não ficar na Matriz, tendo pleno conhecimento de tudo o que se passou, a Matriz torna-se a Realidade desejável. Não pelos motivos hedonistas de Cypher, não por uma questão de escapismo, mas simplesmente por uma questão de lógica natural de simbiose. A verdade é que, tendo a possibilidade de escolher entre a RV e a RR, todas as possíveis desvantagens de se viver na RV desaparecem total e completamente, e novas vantagens são adicionadas. What keeps people from taking control of the Matrix world is their taking for granted the common sense view of how things behave, such as, if you fall you will get hurt.(Hubert & Stephen Dreyfus, 2002) Ultrapassada esta questão, presente na nossa própria sociedade, todas as pessoas poderão aceder à liberdade alargada dos rebeldes que retornam à Matriz, tornando-se esta liberdade o novo padrão para eles. Isto apenas demonstra que, em si, a Matriz não levanta qualquer objecção moral. Foi o discurso de libertação dos rebeldes que conduziu à maior parte dos problemas, não uma tentativa de um sistema de controlo por parte das máquinas.

O terceiro filme, ao eliminar completamente aquele pequeno reduto em que os humanos não podiam escolher – e que, em parte, também resultava de um medo até certo ponto justificado das máquinas, de uma preocupação pela sua própria sobrevivência – vem resolver todas as questões. Vem devolver esta RV ao estatuto em que actualmente colocamos a RV, com a diferença já mencionada de uma imersão total, que faz com que a RV seja, simultaneamente, a realidade e a vida dos sujeitos. Num volta-face interessante, é possível especular que, neste mundo, a diversão dos matrixianos seria constituída por uma pequena excursão à RR, que tomaria todos os contornos da nossa relação com a RV.


Conclusão

 

Os temas aqui abordados não esgotam todas as possibilidades de análise sobre a forma como a realidade é apresentada nesta trilogia. Para interpretar exaustivamente todos os aspectos extrapoláveis, várias centenas de páginas seriam necessárias; já muito se escreveu e se continuará a escrever sobre a trilogia Matrix. Uma coisa é certa, é um dos grandes produtos da nova cultura de Hollywood, capaz tanto de apelar a massas como também a um público erudito, oferecendo tanto um festim tecnológico e de efeitos especiais como de profundidade e intelectualidade.

Ao vermos as obras mencionadas na Introdução que se relacionam com esta trilogia, podemos perceber o quanto do que aconteceu foi culpa do Homem, do seu especismo e da sua tendência para se considerar superior. A analogia do Agente Smith, que nos compara a meros vírus está, infelizmente, exacta dentro do seu limitado alcance. Contrariamente ao que muitos pensaram, o terceiro filme da saga não é uma desilusão, é apenas a prossecução natural de um desenrolar de acontecimentos que, não obstante, poderiam ter seguido muitos outros caminhos. O caminho que os irmãos Wachowsky seguiram foi, porém, o mais natural. Desenha-se uma Matriz benevolente como cenário de futuro, uma união que não tinha sido possível séculos antes, graças à arrogância do Homem. Quantas as lições que não se poderiam retirar daqui. A primeira de todas é a de que o antropocentrismo ainda não desapareceu. O ser humano teme e afasta-se do que não conhece, e teme as próprias possibilidades do que ajuda a criar. A técnica desenvolve-se perante o olhar assustado da Humanidade, que afinal mostra ser a sua própria executora.

Seria fácil e simples fazer uma mera enumeração de significados, uma pura análise semiótica formalizada. Mais desafiante, e portanto mais recompensador, é encarar a forma como este corpus de arte fala com o espectador e tentar deslindar, através das entrelinhas, o discurso que se esconde por detrás de uma visão menos facciosa e hollywoodesca da realidade, pela desconstrução dos papéis de vítimas e heróis. O fim deste ensaio é provocar uma reconceptualização das posições de cada um dos intervenientes na história, para que isso possa ser posteriormente utilizado para uma relação com o real, com o desenvolvimento na era pós-moderna.


Bibliografia


CHEVALIER, Jean, & GHEERBRANT, Alan (1982) Dicionário dos Símbolos. Teorema

IRWIN, William (org.) (2002) Matrix, Bem-vindo ao deserto do real. Madras Editora

As outras referências são do site:

www.whatisthematrix.com

·         The Matrix of Dreams, Colin McGin (2002)

·         The brave new world of The Matrix, Hubert & Stephen Dreyfus (2002)

·         Reality, what matters, and The Matrix, Iakovos Vasiliou (2002)

·         Wake up! Gnosticism & Buddhism in The Matrix, Frances Flannery-Dailey & Rachel Wagner (2002)

·         What’s so bad about living in The Matrix?, James Pryer (2003)



Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.-takeout/knol/28ym4t568gr55-3-an-essay-on-the-matrix.html#_ftnref4" title="">[4] Os cristãos têm como crença que Deus é Amor, isto é, que a perfeição de Deus implica um amor completo por todas as coisas. Sendo Trinity a Trindade, ela representa a acção benevolente do Espírito Santo sobre o seu salvador.

Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.-takeout/knol/28ym4t568gr55-3-an-essay-on-the-matrix.html#_ftnref6" title="">[6] É legítimo pensar que um utilizador de uma qualquer forma de RV apenas desfruta realmente dessa mesma RV porque a consegue contrastar com a sua vida quotidiana. Se a imersão fosse de tal grau que ele não sabia estar numa simulação, encará-la-ia como sendo a sua vida quotidiana, reagindo da mesma forma.

Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.-takeout/knol/28ym4t568gr55-3-an-essay-on-the-matrix.html#_ftnref7" title="">[7] O uso da expressão “percepção consciente” pode parecer redundante, mas serve para demarcar e reforçar a ideia de que é preciso um acto de vontade consciente para que se exerça tal tipo de controlo sobre a Matriz. Como exemplo, o Neo sempre teve, segundo Morpheus, a sensação de que algo não estava bem com a realidade, e que apenas aceitava o que via porque estava “à espera de acordar”.

Este endereço de email está protegido contra piratas. Necessita ativar o JavaScript para o visualizar.-takeout/knol/28ym4t568gr55-3-an-essay-on-the-matrix.html#_ftnref8" title="">[8] A frase original (γνώθι σαυτόν) encontrava-se inscrita no templo de Apolo em Delfos, mais uma ligação cultural entre esta Oráculo e a do Deus Apolo, que também está directamente correlacionado com a história de Sócrates.

Jornalismo e Responsabilidade Social

Conferência/Workshop sobre estas questões a 9 de Maio de 2016, acessível aqui: Jornalismo, ativismo e democracia - Questões e práticas no cruzamento entre imprensa e minorias

Introdução

O Jornalismo encontra-se, neste preciso momento, em plena crise de identidade e legitimidade. Crise de identidade pela convergência de diferentes media que se alteram mutuamente; crise de legitimidade provocada por uma reapreciação empírica e teórica da própria forma de fazer jornalismo na sociedade contemporânea, com a percepção dos jogos de poder envolvidos e com a deriva para o infotainment.

Ainda assim, é impossível contornar o papel fundamental que o jornalismo tem na síntese sociocultural necessária para um mundo cada vez mais próximo, cada vez mais distante. Por conseguinte, urge agora tentar perceber qual o papel do Jornalismo na sociedade actual e, de forma mais premente – atendendo às velhas histórias do Jornalismo como contra-poder ou como Quarto Poder – qual o seu papel social e dos profissionais da informação. Mas, para conseguir chegar a esta conclusão – se é que isso é possível dentro do panorama actual – há que considerar vários factores relacionados com a produção do material jornalístico e também com a sua recepção e respectivos efeitos. Questões como o efeito dos mass media, o questionar dos corolários de objectividade, o estatuto ontológico do Jornalismo e muitas outras terão que passar obrigatoriamente por uma consideração do que é que o Jornalismo pode fazer pelo tecido social.

O Jornalismo e a Realidade


Em primeiro lugar, encontramo-nos perante a desmistificação de qual o papel do jornalismo. Inicialmente tomado como uma forma de transmitir a realidade observada, de a entregar tal como ela é, o Jornalismo é agora correctamente visto como uma forma de construir a realidade. “[…] Em termos sociofenomenológicos [trata-se] de um projecto de objectivação regido tanto por práticas institucionais (a tipificação, as rotinas), como por mecanismos de autolegitimação” – este é o panorama que nos dá Giorgio Grossi (cit. em Saperas, 2000). Isto quer então dizer que o Jornalismo não acarreta consigo apenas os efeitos de ser uma forma de mediação comunicacional, mas também produz sentidos e percepções que nada têm que ver, na sua génese, com o acontecimento que levou à cobertura jornalística. Como diz D. Altheide, a quem Grossi faz referência, “o processo informativo contribui para descontextualizar um acontecimento, para destacar um acontecimento do contexto em que se produziu, e se poder recontextualizá-lo nas formas informativas” (cit. em Saperas, 2000).

O Jornalismo como instituição procura a construção desta realidade através de práticas profissionais conducentes à sua própria legitimação. Esta legitimação é depois validada perante o corpo social onde essa instituição opera e implica uma forma de acordo social entre estas duas entidades (um “acordo comunicativo”, assim lhe chama Grossi), cujo resultado é uma incumbência do jornalista em realizar esta construção tendo como base um conjunto de “vínculos cognitivos que regulam os próprios modelos de intercâmbio e de interação na vida quotidiana” (Grossi, cit. em Saperas, 2000).

Ora, qualquer acordo envolve por sí só uma relação de poder. Como nos faz ver Teun van Dijk (2005), encerra-se nessa relação de poder a possibilidade – o perigo – de uma legitimação plena do detentor da capacidade de influenciar os grupos, neste caso, os meios de comunicação social. Claro que o exercício deste poder nunca poderá ser absoluto – isso seria negar a possibilidade do contraditório e da discórdia dentro do espaço social, fora do contexto jornalístico. Mais adiante será analisada a forma como esta interacção entre a instituição jornalística e a sociedade se processa.

Agora, o foco deve recair sobre as consequências teóricas do que significa saber o Jornalismo como produtor de constructos, ao invés de transmissor de factos e verdades. E a principal é, sem dúvida, a reconceptualização da noção de objectividade que isso implica.

A noção de objectividade surge desde o início aliada à criação de um espaço-audiência comum que englobe o maior número possível de leitores, “de modo a poder «credenciar» o periódico perante os anunciantes” (Mesquita, 2004) – portanto, a objectividade como recurso comercial. O conceito toma uma viragem já no século XX, nos E.U.A., precisamente como forma de reagir contra o sensacionalismo – John Merrill chama-lhe objectivity-as-ethics-concept (cit. em Mesquita, 2004).

É este conceito ético da objectividade que se tem tentado manter desde então. Mário Mesquita fala em três facetas desta acepção de objectividade: normativa, processual e estilística. Porém, como já referido, considerar o Jornalismo como obra de construção da realidade é descartar a objectividade nestes três sentidos. Ao nível normativo – entenda-se deontológico – podemos citar Marguerite Duras: “Um jornalista é alguém que observa o mundo e o seu funcionamento, que diariamente o vigia muito de perto […] e não consegue fazer este trabalho sem julgar o que vê. […] A informação objectiva é um logro total. Não há, de facto, jornalismo objectivo” (cit. em Mesquita, 2004). O processo jornalístico também obsta à entronização do conceito de objectividade: Gaye Tuchman identificou, já nos anos 70, toda uma série de práticas mecanizadas de obtenção de uma suposta “objectividade” que, na verdade, nada mais é do que uma forma de “diminuir os riscos corridos pelos profissionais” (Mesquita, 2004). Além disso, o recurso a técnicas discursivas como a própria pirâmide invertida implicam já um grau de interpretação, como Schudson afirma (cit. em Mesquita, 2004).

Por último, a questão do estilo, como vista pelos defensores acérrimos de uma suposta objectividade asséptica, é posta em causa por mais do que uma prática corrente do jornalismo. De um lado, o Novo Jornalismo afirmou-se precisamente pela busca da subjectividade: “Nunca vacilei perante qualquer artifício que pudesse, de forma razoável, atrair a atenção do leitor durante mais uns segundos” (Wolfe, 1994); por outro lado, as práticas do jornalismo de investigação acabam por destacar o papel do autor do texto jornalístico; a Declaração de Princípios da UNESCO refere uma necessidade de contextualização e explicação, que serão sempre interpretativas. Ainda assim, nada disto tem que indicar o colapso do Jornalismo – a redenção pode advir da expressão de Paul Ricœur (cit. em Mesquita, 2004): a “atitude de objectividade”. Esta passa por uma “subjectividade de investigação” (termo do mesmo autor) que, como nos explica Mesquita (2004), é uma “implicação pessoal do jornalista na reconstrução e explicação dos acontecimentos”.

O Jornalismo e a Sociedade


O aspecto seguinte a ter em conta na compreensão da dinâmica do Jornalismo encontra-se no lado da recepção da mensagem, nos seus efeitos performativos. De facto, é preciso perceber como é que o Jornalismo age sobre a sua audiência para saber qual o seu alcance social, quais as capacidades que inerentemente permitem ao jornalista agir.

De uma longa tradição de considerar os media como detentores de apenas alguns efeitos fracos de âmbito reduzido, o paradigma dominante originário dos E.U.A., passa-se para uma reavaliação da influência forte dos media e do jornalismo em particular.

A Gap Hypothesis é um dos trabalhos mais influentes nesta área. Segundo esta hipótese de trabalho, “estabelece-se […] um distanciamento de conhecimentos entre os diversos sectores socioeconómicos, fundado numa diferença de capacidades comunicativas dos indivíduos” (Saperas, 2000). A informação é assim considerada como uma ferramenta de controlo social, que gera desigualdades entre os diferentes escalões sociais, ao mesmo tempo que contribui para “reforçar certos valores e certas normas na sociedade”, segundo Tichenor, Donohue e Olien (cit. em Saperas, 2000). Eis a importância desta questão: “as desigualdades sociais na distribuição do conhecimento político e correspondentes desequilíbrios na incidência da participação política ameaçam o conceito de igualdade política” (Eksteriwicz, Roberts e Clark, cit. em Mesquita, 2004). Este distanciamento provoca portanto uma fragilização da audiência, num dispositivo cíclico que leva a um desmesurado poder dos media sobre a sociedade ou, pelo menos, sobre as camadas desta que não pertençam à elite.

“A comunicação de massas elabora os seus conteúdos em função da estrutura social na qual se realiza a actividade dos meios de comunicação de massas, de forma que os temas que suscitam um maior interesse colectivo projectam sistematicamente as posições que sobre estes temas são sustentadas pelos grupos que exercem o poder social e económico, assim como cultural.” (Saperas, 2000)

É com isto em mente que podemos entender em seguida o funcionamento da “Espiral do Silêncio”, de Noëlle-Neuman. A autora explica como a percepção que cada um tem do que considera a opinião pública, e a percepção de como a sua própria opinião pode diferir dessa mesma opinião supostamente consensual levam, através do medo do isolamento social, a que essas opiniões divergentes sejam silenciadas (Noëlle-Neumann, 1995). Isto reforça ainda mais a própria ideia de consenso que se faz sentir na dita “opinião pública”. E um dos veículos dessa ideia de opinião pública é exactamente o jornalismo, que faz passar uma visão unívoca e pré-definida do que rodeia os indivíduos, parcialmente através dos aspectos acima mencionados.

Mais ainda, os media servem também uma “função de articulação”. Ou seja, são eles que disponibilizam aos indivíduos “as palavras e as frases que podem utilizar para defender determinado ponto de vista” (Noëlle-Neumann, 1995), auxiliando a que todas as outras, com menos recursos mais facilmente disponíveis, sejam remetidas ao silêncio. Não é possível evitar aqui o paralelismo com a forma de funcionamento dos estereótipos, que são parcialmente utilizados como forma de poupar recursos cognitivos (vide Galen Bodenhausen, investigador no campo da Psicologia, que pesquisou o uso de heurísticas como forma de tomar decisões).

Por último, importa que nos debrucemos sobre os pontos que Teun Van Dijk usa para basear a importância da análise crítica do discurso (ACD). O principal é o seu entendimento de como os media exercem o seu poder: o “controlo da mente”. Van Dijk ressalva que este controlo não pode nunca ser absoluto: “não podemos prever sempre quais são os traços de um determinado texto ou fala que poderão ter efeitos nas mentes de receptores específicos” (Dijk, 2005). Ainda assim, existem quatro influentes formas pelas quais este controlo da mente é exercido, que envolvem uma aceitação acrítica quando se considera a fonte “de confiança”; uma obrigação em participar da recepção do discurso, que leva a um maior controlo institucional sobre o que e como é dito; a incapacidade de conseguir derivar crenças alternativas a partir dos materiais fornecidos pelos media; por fim, a possibilidade de que os receptores não possuam os conhecimentos e recursos cognitivos necessários para proceder ao contraditório.

Este último ponto em específico resulta dos três anteriores, mas também se liga directamente às duas ideias anteriormente apresentadas: de um lado, a Gap Hypothesis teoriza sobre as consequências da falta de conhecimentos sobre um dado assunto; do outro, a Espiral do Silêncio mostra como a falta de “palavras e frases que podem utilizar” (para usar a expressão da autora) reconduz a uma postura de passividade. O próprio van Dijk diz: “[…] a falta de poder dos leitores pode envolver o acesso limitado (passivo) ao discurso dos media” (Dijk, 2005).

Concomitantemente, importa destacar o papel muito relevante dos conceitos de ideologia e modelos mentais, que van Dijk aplica na sua obra. Os modelos mentais identificam-se com aquilo que mais retemos da leitura de um texto ou participação de algum acontecimento, uma “representação esquemática das dimensões pessoal e socialmente relevantes dos acontecimentos” (Dijk, 2005). Como já foi referido, o trabalho do Jornalismo é o trabalho de uma construção da realidade. Assim, a factualidade não é o que preside à coerência do texto jornalístico, mas sim “os modos como os factos são definidos ou interpretados pelos utilizadores da linguagem nos seus modelos mentais desses factos” (Dijk, 2005). Além disto, o uso do que ele chama scripts ou seja, formas pré-definidas e normalizadas de produção de comunicação sobre determinados assuntos (estruturas narrativas, portanto, que têm apenas de ser aplicadas aos particulares de cada acontecimento noticiado), contribui para uma homogeneização do trabalho de interpretação da audiência, que tem como plano de fundo o mesmo “quadro fundamental de interpretação”, ou seja, a mesma ideologia. O jornalismo apela então a esta ideologia como forma de facilitar uma leitura pretendida, com vista ao reforço da estrutura social existente – manutenção do status quo.

Envolvimento e Distanciamento – A Falsa Polémica


Desde muito cedo a percepção destas nuances da prática jornalística levou a uma bipolarização. Esta é especialmente evidente no campo da aplicação das normas deontológicas, e liga-se também à reconceptualização da objectividade. Formaram-se então dois enclaves supostamente antagónicos e irreconciliáveis, tanto mais por serem impossíveis de praticar de forma “pura”: de um lado o jornalismo da Razão pura, o absoluto recuo crítico que desliga o jornalista do leitor, algo comparável ao que Mário Mesquita chama de “jornalista observador” e que se pode identificar parcialmente com o jornalismo de agência; e o jornalista engajado, que engloba várias categorias, como o “militante”, “comprometido” ou o “comunitário” (Mesquita, 2004).

Norbert Elias é extremamente incisivo sobre esta questão. O distanciamento puro não é possível, não é praticável (Elias, 1998). Apesar de este autor se estar a referir ao papel do cientista social, a verdade é que as suas conclusões podem, cum grano salis, ser aplicadas ao papel do jornalista. O jornalista tem que fazer parte do tecido social sobre o qual vai escrever para conseguir compreender o contexto, para conseguir proceder a uma construção com maior coerência e manter ainda assim uma atitude de objectividade. O afastamento radical da cognição social do que é a realidade – um perigo que o excesso de distanciamento comporta, e que acaba por tornar nulo ou desadequado o texto jornalístico – desliga o jornalista do seu público. A performatividade discursiva, aqui considerada sob o ponto de vista de uma necessidade no papel do jornalista para a prossecução de uma missão social, anula-se. Além disso, com o fim da crença na objectividade pura do Jornalismo, esta visão perde qualquer sustentação teórica.

No outro extremo da escala ou, mais exactamente, do continuum (Elias, 1998), encontra-se o jornalismo cívico, nas suas diferentes acepções. Apesar das variadas premissas que apontam direcções positivas e lições a tirar para uma melhor prática jornalística, o jornalismo cívico incorre num grave erro. O engajamento sem fronteiras parte de um bom princípio (o reavivar do debate racional do espaço público) mas concretiza-se numa visão maniqueísta de Jornalismo como contra-poder, como uma ferramenta de pressão simples, orientada num único sentido, tomando forma e consistência apenas contra as instituições oficiais de poder, ignorando assim o complexo palco social em que as relações de poder discursivo se inscrevem. Sofreria também a capacidade de auto-regulação, numa linha que vai claramente contra os princípios da responsabilidade social. Além do mais, como identifica Michael Schudson (cit. em Mesquita, 2004), há a “tendência para não considerar o que acontece quando os valores comunitários colidem ou até onde os valores comunitários não-liberais têm que ser tolerados pelo público”.

Tem surgido também uma terceira via, que procura a submissão do Jornalismo a uma prática de comércio, tendo por bandeira a informação como bem de consumo. A rapidez e a superficialidade caracterizam esta terceira via, e o infotainment é o seu ex libris. Do frenesim criado pelo Big Brother, figura de contaminação do género jornalístico sem dele fazer parte, até às repercussões disso mesmo no caso de Entre-os-Rios, este jornalismo do imediatismo vê-se acicatado pelas novas tecnologias de informação, que lhe servem de apoio para um contacto que é cada vez mais da ordem do imediato, do irreflectido. Aqui a distanciação crítica esvai-se em favor da frescura da notícia. A proximidade é a pedra de toque e, ao contrário da impraticabilidade da racionalidade absoluta no jornalismo, é muito facilmente executável e podemos vê-la reproduzida nos momentos mais passíveis de exploração emotiva: o caso do momento é o da jovem Maddie, onde podemos assistir a uma clara manipulação dos media e onde quase cremos que o Grande Irmão existe mesmo, ou que entrámos na torre de controlo panóptico.

Contra o Status Quo


Apesar de parecerem esgotadas as vias para o caminho da missão social do jornalista, assim não é. Em primeiro lugar, é preciso reafirmar a participação activa do jornalista na produção jornalística. Isto é, o jornalista não é apenas um avatar de um suposto super-sujeito que dá pelo nome do órgão de comunicação social que emprega o dito jornalista. O papel deste agente social é fundamental para a forma como o jornalismo é desenvolvido. Os condicionalismos institucionais que o jornalista sofre não são suficientes para fazer esquecer que, no fim de contas, é o jornalista singular, num processo criativo, que elabora o texto jornalístico, não a instituição por si mesma. Como van Dijk faz notar, “[…] a imprensa mainstream está longe de ser um espectador passivo, muito menos uma vítima de controlo político ou corporativo e de manipulação. […] a imprensa é frequentemente a primeira a presenciar ou a descrever acontecimentos de última hora, novos desenvolvimentos ou situações locais. É sobretudo a sua definição da situação que contribui para a manufactura da opinião pública, senão das opiniões das elites políticas. […] Isto é, na medida e que a imprensa é «livre», também tem (contra)-poder potencial” (Dijk, 2005). Ainda assim, “a imprensa é parte inerente desta produção conjunta de um consenso que sustém o poder da elite” (Dijk, 2005).

A proposta que aqui é feita pretende, no campo teórico e, até certo ponto, no prático também, avançar com uma possível solução para o confronto entre dicotomias. Pela realização de um movimento sincrético que toma em conta a necessidade de distanciação que o jornalista tem que ter para cumprir correctamente o seu papel, mas que também leva em conta que a audiência não é nem deve ser um mero repositório de discurso retórico e puramente formalizado, se propõe que a missão social do jornalista seja a de combater o status quo. A leitura atenta da obra de van Dijk, da Gap Hypothesis e da Espiral do Silêncio aponta-nos uma constante: a da existência de mecanismos de repetição ideológica que conformam o discurso e, por contaminação, o espectro dentro do qual a própria sociedade em geral se permite pensar. É contra esta repetição que o jornalista terá de se insurgir. Na sua base, podemos encontrar algumas das premissas do jornalismo cívico, como uma maior preocupação com o bem-estar do espaço de debate público ou a vida política da sociedade. Porém, este é um âmbito restrito do que aqui se entende por combater o status quo. É a predominância de certos temas (de cariz primariamente político e/ou conflitual) que representa uma das maiores fraquezas do jornalismo cívico. Assim, por exemplo, a oposição a uma medida política seria trocada pela exploração crítica de várias medidas possíveis para aquele caso, com a sua correcta contextualização, dentro da medida do possível. Isto porque o status quo não é aquela medida concreta, ou sequer aquele Governo ou Ministro concretos, mas sim a ideologia que lhes subjaz, e que os ultrapassa. Outro caso: um avanço científico poderia ser explorado do ponto de vista dos antecedentes da investigação, dos benefícios, mas também seria feita uma problematização das possíveis consequências negativas, interesses envolvidos na sua divulgação (ou não), etc. Isto porque a ideologia aqui é a da Ciência messiânica, redentora e salvadora de tudo – mesmo das complicações que foi a própria a criar. O jornalismo seria então um explorar de possibilidades, de potencialidades. O campo jornalístico alarga-se até ao infinito da globalização – mas ao invés de se fazer a apologia de uma visão eurocêntrica e etnocêntrica, far-se-ia a apologia de um movimento de fusão. Respeitando o verdadeiro princípio do espaço de debate racional, o jornalismo permite que a sua audiência tome contacto com outras realidades, com outras alternativas. E usa-se aqui outras realidades como forma de representar o que está tão dramaticamente fora dos modelos de cognição social que se pode considerar como estando, no espírito do que diz van Dijk, fora da realidade mediaticamente construída.

Mário Mesquita prefere “colocar a questão da responsabilidade social do jornalista em termos de mínimo ético, que se cumpre através do respeito de um certo número de procedimentos e processos”, de forma a evitar que se sirva “um humanismo […] quente na bandeja da tecnologia” (Mesquita, 2004). Porém, esta atitude pode ser perfeitamente comparada ao movimento demasiadamente cauteloso e meramente utilitarista que Tuchman identificou como sendo o que era aplicado à noção de objectividade. Pois, se os media são capazes de efeitos poderosos, os actos por detrás desses efeitos podem também ser poderosos – são-no realmente, como nos mostra a teoria do Jornalismo como produtor de constructos sociais. Ora, essa potencialidade não é automaticamente nefasta, a não ser aquando do momento da sua aplicação.

Não se procura, com o combate ao status quo, fazer um jornalismo de guerrilha, de posições definidas, de entrincheiramento. Esses são os erros do jornalismo cívico, do jornalismo que pensa as suas guerras dentro do panorama da ideologia, reforçando-a mesmo com a aparente oposição. O jornalista que combate o status quo não é apologista desta ou daquela posição definida, não é o lutador de um ideal que estará, mais que provavelmente, encerrado ainda dentro da estrutura discursiva da ideologia a que “pertence”. Quase inadvertidamente, é a própria Gap Hypothesis que nos aponta uma das facetas práticas necessárias: “Quando a disseminação da informação sobre um tópico se mantém durante um longo período de tempo, o distanciamento dos conhecimentos entre aqueles que estão mais ou menos interessados no tema tende a diminuir” (Genova e Greenberg, cit. em Saperas, 2000). O que vai isto provocar? Uma alteração radical – a negação da supremacia da tabela de valores-notícia como orientador da agenda mediática.

Isto não quer dizer que, subitamente, os mass media teriam que se transformar em órgãos de divulgação de Ciências Sociais e Humanas ou de Ciências Naturais, ou numa súmula de análises sociológicas e antropológicas da realidade. A propósito dos acontecimentos inevitavelmente existentes, seria possível trazer a público todo um acervo informativo transcultural que é muitas vezes ignorado ou, então, secundarizado como pertencente a um Outro. Também não seria realista pensar que se poderia fazer uma transmutação do Jornalismo nesta busca da destruição do status quo num passe de mágica. Ou que subitamente todo o discurso jornalístico seria igual e uniforme. O combate ao status quo prevê isso mesmo – no momento em que uma determinada concepção ou prática passa a integrar o status quo, ela pode e deve questionar-se a si mesma, ou a quaisquer outras: a perfeição não é algo que o Humano possa atingir, apenas aspirar. Portanto, o trabalho de alteração social não está nunca concluído.

A auto-crítica é essencial para este processo. Não num ponto de vista de auto-censura, de estabelecimento de proibições, mas sim na afirmação realista de que o jornalista (ao estar tão dentro do tecido social como qualquer outra pessoa) pode ser – e é-o muitas vezes – vítima dos próprios processos de normalização ideológica, quanto mais não seja pelo uso dos scripts de que fala Teun van Dijk. Esta auto-crítica far-se-á através de uma adaptação contextual da própria Análise Crítica do Discurso. Como nos exorta o próprio (2005), “[…] devemos exercitar o estudo do discurso em geral e o estudo do discurso dos media em particular, num quadro amplo, crítico e multidisciplinar que examina as estruturas e a acção combinada das dimensões discursivas, cognitivas e sociais do texto e fala nos seus contextos societais”. A ACD é definida pelo autor como orgulhosamente enviesada. Enviesada no ponto em que a crítica que se faz identifica estruturas de poder e providencia um ponto de luta contra elas. Mas, mais uma vez, estas estruturas de poder são vistas ao nível macro-social, ao nível da ideologia, e não de um governo, de uma personalidade, de um estado, de uma instituição. Só o jornalista pode, no seu trabalho do dia-a-dia mesmo no actual contexto de submissão ideológica, readaptar a sua própria escrita para contrariar os efeitos perniciosos do uso quase inconsciente de controlo da mente que a instituição jornalística tenta fazer mediante uma aculturação por osmose que raramente é posta em causa pelo próprio jornalista. Ao apresentar uma panóplia de diferentes concepções de realidade, evita-se o efeito da Espiral do Silêncio tanto quanto possível. Ao não esquecer que dentro das estórias vivem pessoas, pessoas que fazem também parte da audiência, mantém-se intocada a subjectividade do profissional de informação, e a sua capacidade criativa, herdada do Novo Jornalismo. O trabalho que aqui resta realizar prende-se com a futura adaptação do contexto institucional a uma nova forma de ver e fazer Jornalismo.

Bibliografia


Dijk, T. v. (2005). Discurso, Notícia e Ideologia. Estudos na Análise Crítica do Discurso. Porto: Campo de Letras.

Elias, N. (1998). Involvment and Detachment. In S. Mennell, & J. Goudsblom, On Civilization, Power and Knowledge (pp. 217-248). Chicago: The University of Chicago Press.

Mesquita, M. (2004). O Quarto Equívoco - O poder dos media na sociedade contemporânea. Coimbra: MinervaCoimbra.

Noëlle-Neumann, E. (1995). La espiral del silencio - Opinion pública nuestra piel social. Barcelona: Ediciones Paidós.

Saperas, E. (2000). Os Efeitos Cognitivos da Comunicação de Massas. Lisboa: ASA Editores.

Wolfe, T. (1994). El Nuevo Periodismo (6ª ed.). (J. L. Guarner, Trad.) Barcelona: Editorial Anagrama. 

«Redes Sociais e Segurança na Internet»

A Associação de Pais e Encarregados de Educação do Agrupamento Vertical de Escolas do Concelho de Borba enviou um convite ao EU Kids Online para se fazer representar na Conferência «Redes Sociais e Segurança na Internet».

Estive presente no Cine-Teatro de Borba, dia 12 de Maio, pelas 15 horas, a representar o EU Kids Online Portugal, de forma a discutir e problematizar a questão da segurança, das redes sociais e da Internet.