Poliamor - as comunidades do meme

Daniel Cardoso, 16422

2009

Seminário Cibercultura

 

Uma introdução possível

            Vamos neste trabalho tentar desenhar uma possibilidade de percurso que possa unir elementos aparentemente diferentes – o poliamor, a ideia de meme e as comunidades on-line. Mais especificamente, o que importa aqui é como poderemos pensar o poliamor em termos do vocabulário da Cibercultura – como meme. Por fim, uma revisão ao conceito de comunidade, comunidade virtual e a sua crítica serão tentados, de forma a estabelecer uma terminologia consistente e que permita analisar, num momento posterior, o fenómeno.

            O objectivo é precisamente tentar clarificar em que contextos e de que formas é possível realizar uma leitura dos acontecimentos em torno do surgimento da palavra “poliamor” e das suas consequências tecno-sociais. Num paradigma de constante recriação do sujeito pelo sujeito dentro das lógicas das tecnologias do self  que Foucault, entre outros, analisaram, as consequências em torno desta palavra são variadas e necessitam que se compreenda qual o papel que a mediação tecnológica desempenhou no processo. Isso implica perceber a sua génese, a sua própria identidade dentro e fora do contexto da cibercultura, bem como esses mesmos dois elementos para os seus efeitos.

 

Meme – de Dawkins à Internet

            Este conceito surge em “O Gene Egoísta”, de Richard Dawkins e, como o nome deixa adivinhar, estabelece um paralelismo entre estes memes e a genética. Aliás, o próprio autor refere que queria criar uma palavra que soasse a gene, para reforçar este paralelismo. Ele define-o como sendo um “novo replicador, um substantivo que transmite a ideia de uma unidade de transmissão cultural, ou uma unidade de imitação” (Dawkins, 2006: 192). De acordo com o autor, e à semelhança da genética, existem três categorias elementares para um meme: a longevidade, a fecundidade e a fidelidade de cópia [copying-fidelity].

            Destas três características, a mais importante é a da fecundidade. Como dispositivos de replicação e cópia, é precisamente a sua eficiência nesta tarefa que marca a sua qualidade. E aqui há que distinguir entre memes que são extremamente bem sucedidos a curto prazo, mas que falham a médio ou longo prazo. Esta fecundidade processa-se ao nível social: uma “ideia-meme pode ser definida como uma entidade que é capaz de ser transmitida de um cérebro para outro” (Dawkins, 2006: 196).

            Os memes tornaram-se parte essencial de como se pensam vários fenómenos relacionados com a Internet, existindo mesmo sites que permitem avaliar a vida e impacto de alguns dos mais significantes em termos quantitativos. Muito antes de Dawkins ter publicado o seu livro, já circulavam na Internet frases, siglas, imagens, links – um sem-número de recursos que apelavam a uma qualquer referência pré-existente ou que se destacavam como marca de pertença e partilha. Para a leitura dos símbolos ou memes, era necessária adaptação ou conhecimentos prévios, mas a sua aprendizagem é geralmente rápida e adoptada como forma de aceitação. Os exemplos mais comezinhos são o “ddtc” português das salas de chat ou o “lol” inglês. No que toca a adaptações, o hábito que os internautas portugueses têm de prolongar o “o” de “lol” para denotar mais força na expressão é incompreensível para muitos cibernautas cuja língua materna é o inglês. O meme foi incorporado mas alterou-se. Há também a variação “lolada”, que pretende transformar uma sigla numa palavra, e que se afasta ainda mais do significado semântico do original, mas nunca perdendo a intenção e o sentido originais.

            A questão memética torna-se importante porque, como veremos adiante, nos encontramos perante uma génese linguística que se entrecruza com a internet. A memética on-line também obedece a outras ausências de constrangimento que se prendem pouco com constrangimentos linguísticos e geográficos mas sim, como referido, com a partilha de um background social e cultural, e com a aculturação necessária para partilhar desses mesmos elementos[1].

Poliamor – um meme?

            O conceito de poliamor – no original, polyamory – tem uma história interessante, que pode ser vista num blog, e que está directamente relacionada com a Usenet:

“Alan, you asked how I came into the word polyamory. The answer is that I invented it from the blue. I was having a flame war on alt.sex with Mikhail Zelany about the morality of having non-monogamous relationships, and (a) got tired of typing non-monogamy and (b) it wasn't a good piece of rhetoric to use a negative, hyphenated word to make a positive point.

So one night either in the Biophysics lab I worked in or the Astronomy computer lab where my lover Greg Lindahl worked, in the middle of composing a flame, I decided to make a new word.” (Alan, 2007)

            Ora, à primeira vista não chamaríamos a isto um “meme”, mas um neologismo. Uma nova palavra, inventada num momento determinado, sem uma base prévia e clara, de forma instrumental. Porém, o que podem os neologismos também constuituir senão ideias, ideias que procuram afirmar-se, individualizar-se e criar para si marcas auto-evidentes? Muitos dos neologismos que vemos aparecer estão associados a tendências emergentes, porventura importadas, onde alteramos ou inventamos palavras para que se gere assim uma maior proximidade entre o utilizador do termo e os seus contextos de utilização. Mesmo muitos dos memes existentes (citações de filmes, livros, músicas, etc) pretendem ganhar um sentido próprio, criar uma reacção de reconhecimento que se pretende quase instantânea. A palavra “reconhecimento” tem aqui um valor de bastante importância, pois é um elemento que permite evocar directamente a ideia de identidade, e esta identidade é precisamente o que leva à ancoragem de discursos e sujeitos em torno do meme.

            Qual o resultado, em termos de divulgação e disseminação, já que estamos a abordar a questão através desta perspectiva genética? Esta palavra foi inventada, no contexto acima, em 1992. O Google dá cerca de 778 mil resultados para “polyamory”; 35 mil para “poliamor”, a adaptação mais usada da palavra em Português[2]. Parece que, para uma palavra inventada no calor de uma discussão, não se safou muito mal…

            Mas a história desta palavra faz-nos também pensar num elemento que parece ausente no capítulo de Dawkins dedicado aos memes (possivelmente porque iria confundir a comparação com a genética, e tergiversar para elementos que, num campo e noutro, são altamente problemáticos). Este elemento é: o que leva ao aparecimento dos memes? Em última análise, esta pergunta poderia quase confundir-se com a questão em torno do aparecimento da linguagem, mas queremos aqui restringir o círculo. Porque surgem então estes elementos linguísticos que são dotados de uma forte capacidade de se reproduzir, que são (já obviamente) difíceis de definir e contextualizar, de lhes delinear claramente um princípio e um fim?

            A história do aparecimento de “polyamory” parece dar-nos pistas que, pelo menos, terão validade neste caso.

            Duas questões sobressaem daquele excerto de texto: os dois pontos que ela apresenta são de natureza eminentemente retórica, mas denotam algo curioso: uma falta, um não haver, algo que se plasmava até mesmo na expressão que ela estava a usar (non-monogamy) e que precisou de subverter, sentindo desadequado o facto de estar a referir uma acção ou posição com aquilo que não era. Encontramos aqui então uma ausência lexical, um lugar linguístico que o sujeito sente estar em falta e que precisa de ser colmatado. E podemos arriscar-nos a dizer que encontramos aqui uma génese da identidade nos modos em que as tecnologias do self a produzem – ou seja, a produção de um Eu pela subtracção de si mesmo ao Outro, o Eu como não-Outro[3] – embora a identidade aqui produzida é a identidade de algo que está longe de ser a norma social.

            A segunda questão encontra-se no facto de a autora da palavra estar a fazer a defesa de algo que já pré-existia a palavra. O mesmo é dizer: o poliamor não foi inventado naquela discussão, apenas a palavra o foi. E portanto estamos perante uma prática que a autora sentia ter que ser enquadrada de uma maneira que ainda não encontrava ainda eco na linguagem que possuía. Não podia ainda gerar-se um foco de reconhecimento enquanto a definição a ser usada tivesse que ser negativa, precisamente porque não assumia ainda assim a formatação de uma identidade que pudesse mobilizar os sujeitos.

            Ora, com uma palavra que faça uma delimitação, cria-se a hipótese de reconhecimento e cria-se também a possibilidade de uma identidade que se construa em torno do termo, que o faça evoluir e disseminar-se – e neste ponto se fecha o círculo com aquilo que um meme é, com aquilo que pode unir a história do aparecimento da palavra “polyamory” com a ideia de memes online.

            Por outro lado, esta falha linguística pode também ter outras causas em si mesma, e é na explicação da metáfora genética, do egoísmo e da competição dos genes/memes que podemos encontrar uma outra forma de expressar a normatividade cultural, como parte da dinâmica combativa entre diferentes memes, com diferentes origens e funcionando em diferentes mecanismos de poder.

Comunidades

            Mas o que tem isto que ver com comunidades? A segunda parte da citação da criadora da palavra poderá responder a isso:

“After a couple months I got tired of the flame war and sort of liked the community that was developing around it, so I started the news group. Greg and I politicked a bit to get it widely picked up by sites we thought would find a following. I guess it worked. :-)” (Alan, 2007)

            A resposta à criação desta palavra e à discussão em torno dela foi criar uma comunidade, um grupo da Usenet, que foi também sendo disseminado activamente pelos seus elementos iniciais. Esta comunidade serve então como ponto de difusão memética. Por volta desta altura, várias pessoas que até então estavam a trabalhar em questões semelhantes ou com a mesma orientação dentro dos EUA começaram a conseguir congregar-se, a organizar-se, tanto offline como online. Encontraram assim um conceito para aquilo que já acontecia, para aquilo que já praticavam e defendiam, e podiam assim auto-referenciar-se.

            Também em Portugal, uma das primeiras acções de quem importou o conceito foi precisamente criar um site e uma mailing list como forma de divulgar o conceito autonomamente. A Internet continua assim a servir como um vector para a disseminação memética, aquando da importação do conceito/palavra para outros países. Um grupo relativamente pequeno de pessoas procura fazer crescer os seus números e a publicitação (a projecção para um espaço público, mesmo que “virtual”) vem a par com a ideia de auto-reforço identitário.

            Pensar sobre comunidades pode parecer simples mas, na verdade, gera grande debate. Desde a ideia que com a Internet conseguimos ligar toda a gente (e a pergunta levanta-se: basta isso para se ter uma comunidade?) até à noção massificada de que a internet cria alheamento, anomia social. Como diz Fernback (2007: 52), a comunidade é agora “descritiva e prescritiva, local e global, espacialmente definida ou sem fronteiras, pública ou privada, orgânica ou mecânica, intencional ou acidental, com ou sem propósito, opressiva ou libertadora, funcional ou disfuncional”. Esta espécie de indecisão conceptual que acaba por alargar todo o espectro de possibilidades sobre o que é a Internet e, por consequência, o que são comunidades dentro dela, vem de uma alteração entre a visão de século XIX sobre o que faz de uma comunidade uma comunidade e as recentes alterações que têm vindo a erodir cada um desses pontos, mantendo no entanto a noção de comunidade.

            Independentemente disso, não há dúvida que se constituiu ali (e se mantém ainda) um grupo (mais ou menos definido, não necessariamente constante nem homogéneo) de pessoas que procuraram e se envolveram activamente com o tema em questão.

            E quando ali se fala em “politicking”, isso parece fazer-nos lembrar que existe ali um objectivo, uma posição partilhada ou a partilhar, com competências e propósitos. O que nos leva, por exemplo, à ideia de “comunidade de prática”. Criado em 1991 por Lave e Wenger, este conceito tem sido utilizado fundamentalmente na área da gestão de recursos humanos e gestão do conhecimento, já que está intimamente ligado com a ideia de aprendizagem. No geral, prende-se com a ideia de que a formação de comunidades informais, associadas a uma temática específica (e portanto a um conhecimento específico sobre algo – que, no caso do enquadramento da gestão, é normalmente um saber profissional) permite não só a aquisição de novas e diferentes competências, mas também uma mudança identitária relacionada com este processo. Ao modelo cognitivo sobrepõe-se agora um modelo construtivista e situacional (Cox, 2005: 529).

            O trabalho de Lave e Wenger olha também de perto para como os “novatos” são socializados em determinadas práticas (e, portanto, identidades) o que poderá provar-se útil na base de análise que aqui se propõe. O grupo alt.polyamory da Usenet é constituído por um vasto número de entradas que, ao nível não-profissional, estabelecem alguns paralelismos com esta situação – recém-chegados que pedem à comunidade contribuições e input no que toca à sua situação ou problema.

            Brown e Duguid seguem numa direcção relativamente diferente, embora ainda dentro do contexto da gestão empresarial, tentando perceber como é que empregados resolvem problemas para os quais não existe uma solução a priori, e o fazem através das suas próprias comunidades não-formais. A ênfase aqui está muito mais na criação de narrativas dentro dessas comunidades e de uma indistinção entre os seus membros, ao passo que as comunidades de prática de Lave e Wenger se dividiam claramente entre peritos e aprendizes ou recém-chegados.

            Ainda assim, só num trabalho posterior de 1998 é que Wenger define claramente o que quer dizer com “comunidade”, enfatizando de tal ordem o seu carácter forte e voluntário que pouco mais do que isso fica do que antes se consideraria uma comunidade. O que leva, por conseguinte, como faz Cox, a perguntar porque será que o termo “comunidade” foi sequer usado.

Comunidades?

            Efectivamente, o uso desta palavra, como já se viu anteriormente de forma cursiva, parece implicar bastantes problemas de organização de ideias. Fernback afirma que o conceito de comunidade se tem tornado “cada vez mais vazio, à medida que evolui para uma colagem de elementos que ostensivamente “significam” comunidade” (2007: 53), o que é ainda mais premente quando olhamos para as tentativas de especificar o que são exactamente comunidades virtuais. Até que ponto não poderemos estar a cair na falsa dicotomia entre o real e o virtual? Serão ambos os tipos de interacção apenas modalidades de um mesmo sistema social, como defende Papacharissi (in Fernback, 2007: 53)? De resto, Bakardjieva (2003: 311) aponta para o risco que existe na criação de uma distinção clara entre comunidades virtuais e comunidades “reais”, na mesma linha de separação que o “real VS virtual” – isso “cega os comentadores para a possibilidade de novas, inesperadas e inimagináveis” práticas tecno-sociais.

            Vários autores têm tentado partir para longe da ideia de comunidade, e tentar fazer soar outros conceitos, como a glocalização e o individualismo em rede, de Wellman. Ou, por uma abordagem semelhante, a “proximidade virtual” (virtual togetherness) de Bakardjieva.

            Estas tentativas têm como objectivo essencial eliminar algum do peso histórico que a ideia de comunidade tem mantido e alimentado, como excelente meme que é, de resto. Ao ir para além da noção de comunidade, questionando o conceito, ou talvez a sua vacuidade por excesso de uso, poderemos então chegar a uma análise mais fina dos fenómenos perante os quais nos colocamos. Falar em “comunidade” é falar numa “docemente persuasiva palavra usada para descrever um […] conjunto alternativo de relações [que] nunca parece ser usada de forma desfavorável e que nunca recebem nenhuma oposição positiva ou termo de distinção”, para Raymond Williams (in Bakardjieva, 2003: 292).

            Esta ideia de individualismo em rede faz lembrar as actuais e famosas “redes sociais” (social networks) da Web 2.0 – não será efectivamente indicativo de algo que a ideia de comunidade não entra no vocabulário típico da Web 2.0? Aliás, a própria definição de comunidade virtual[4] que se encontra na Wiki desta cadeira usa várias vezes a expressão “rede social” ou afins.

            Wellman parece categórico: “Este é o tempo dos indivíduos e das suas redes, e não dos grupos. A proliferação de redes sociais computacionalmente mediadas alberga mudanças no “capital reticular”: como as pessoas contactam, interagem e obtêm recursos umas das outras” (Wellman, 2002: 11). Anderson (inBakardjieva, 2003: 293) nota que “todas as comunidades maiores que as aldeias primordiais em que se usava apenas o contacto cara-a-cara (e talvez até mesmo estas) são imaginárias”, fazendo assim quebrar a distinção entre comunidades virtuais e “reais”, não pela concretização do virtual (como vimos acima), mas pela virtualização do “real”.

            O autor propõe então uma tipologia tripartida, não mutuamente exclusiva e que ele mesmo admite sofrer de um excesso de generalização: Grupos, Glocalização e Individualismo em Rede. Das “caixinhas”, passa-se à rede glocal e, depois, à comunicação pessoa-a-pessoa. De grupos baseados em proximidade física, passa-se progressivamente para proximidades temáticas, para um desligamento dos constrangimentos espaciais. Como o próprio exemplifica, quando se telefona para um telefone fixo, está-se sempre a telefonar para um sítio, mas quando se visa um telemóvel, telefona-se para uma pessoa, esteja ela onde estiver.

            Numa obra mais recente, juntamente com outros autores, Wellman retoma a palavra “comunidade”, mas desta vez funde os dois elementos: “comunidades pessoais” (Chua et al, 2009) – “as ligações que têm os indivíduos no seu centro”. Este termo é usado ainda dentro da lógica do “individualismo em rede”, identificado como uma forma contemporânea de comunidade. Faz-se assim uma distinção entre as redes pessoais e as comunidades pessoais, que consistem em “laços que são significativos para os egos” (Chua et al, 2009). Porém, acabamos assim por regressar à problemática do uso recorrente de uma palavra cujo significado se encontra já saturado e que é herdeira de uma concepção potencialmente enganadora.

            O pensamento que permite traçar linhas de discurso, influência e poder é o pensamento que se debruça sobre cada um dos traços – é o pensamento da reticularidade, de uma organização sócio-política que se vem afastado de uma acção institucionalizada para uma micro-física do poder. A comunidade, como construto social, é, proponho aqui, um efeito óptico, que advém da organização e apresentação (gráfica) do esquema de uma rede. Nódulos de densidade superior à média criam a noção de uma unidade analítica que nem é necessariamente significativa, nem objectiva – e a prova disso mesmo é que, consoante as formas de recolha de dados usadas (Chua et al, 2009: 7-9), os resultados (as comunidades identificadas) podem variar grandemente.

            E tal como desde sempre a sociologia identificou e problematizou a questão dos vários papéis sociais como sendo algo de complexo para a gestão da identidade do sujeito, também estas ligações são múltiplas, e cada sujeito encontra-se em várias redes que podem ou não cruzar-se, que requerem respostas autónomas, dinâmicas e que podem, também, gerar incerteza.

            Se isto parece déjà vu, é porque efectivamente o é. A Sociologia tem vindo a debruçar-se cada vez mais proximamente sobre a individualização (um termo que talvez seja mais adequado ao que Wellman queria fazer passar) e, como demonstrei anteriormente (Cardoso, 2009, não publicado), a individualização de que Beck e Beck-Gernsheim falam está longe do individualismo anómico e muito perto do que parece ser o ethos do poliamor ou, pelo menos, as suas condições mínimas tal como ele é pensado actualmente. Com tudo o que isso tem de bom e de mau.

            Então é possível, regressando às três diferentes associações que Wellman identifica (“pequenas caixas”, glocalização e individualismo em rede), pegar nesses mesmos critérios para tentar estabelecer uma analítica. Se, tal como o autor afirma, estes três modelos não se sucedem, mas complementam-se, então será possível encontrar traços de todos os três tipos em uma qualquer rede – perceber qual o mais relevante para cada rede ou conjunto de redes poderá permitir-nos entender as suas dinâmicas. Não só isso, mas também as suas consequências e influências, entre as quais as que Chua et al identificaram (apoio social, mudança de situações, manutenções e desafios às desigualdades, entre outras).

            Se recuperarmos portanto a concepção reticular, quase hipodérmica, com que Foucault desenha os dispositivos e a circulação do poder entre eles, estamos então prontos para estabelecer alguns paralelismos. Porque, fechando um novo círculo, o meme do poliamor é aquele que aqui é posto a circular através de uma rede que é, por um lado, informática (os servidores, terminais e ligações) e, por outro lado, pessoal – os cérebros que a ideia infecta, que a ideia-meme usa para se reproduzir.

Revoluções e discursos

            Chua e seus colegas falam de uma tripla revolução (2009: 17): revolução da internet, revolução das comunicações móveis e revolução das redes sociais. Porém, esta revolução não deixa de ser uma sub-categoria de comportamentos sociais mais vastos, o que não pode deixar de levantar a pergunta “o que surge primeiro?” ou “o que é que influencia o quê?”.

            Se é sequer possível responder a essa pergunta, para além do costumeiro “mútua influência em processo de duplo feedback contínuo”, a resposta ultrapassa o âmbito deste trabalho. Porém, outras questões tomam aqui relevância – como circulam os discursos dentro desta rede específica? Se estamos a analisar o grupo de pessoas que está dentro de uma determinada plataforma, para que dados devemos olhar, e que efeitos devemos auscultar.

            Se nos aproximarmos da ideia de uma “comunidade de prática” – talvez, agora, uma rede de prática? – para tentar entender as implicações de aprendizagem e reprodução memética presentes no grupo, poderemos estar perante uma forma de concentração de interpretação. Mas, por outro lado, se cada pessoa constitui um nexo central da sua própria rede relacional, como é sequer possível pensar no fechamento das significações e interpretações? E que consequências pode ter cada uma destas alternativas para a posição e evolução do conceito de poliamor?

            Porque este grupo, nesta plataforma, não é o único grupo, nem a única plataforma, há que entender o diálogo entre discursos on-line e offline, o estabelecimento de determinados utilizadores como detentores de maiores conhecimentos ou competências, etc. – factores que influenciam a própria dinâmica e existência desta rede.

Mudanças, classificações, investigações

            O que aqui se tentou fazer foi uma contextualização do que é um meme, do que são comunidades e do quão actual ou desactualizado esse termo pode estar. Talvez o título precise de ser ligeiramente alterado para reflectir isto mesmo.

            Como é que uma palavra cresce, da Internet e para fora dela, desta maneira? O que pode querer isso dizer para a dicotomia virtual/real?

            A investigação prática tem agora vários desafios a ultrapassar: que termo ou combinação de termos pode ser usada para uma descrição actual? Na base disso mesmo poderão estar as tabelas de características que Wenger e Wellman apresentaram.

            Por outro lado, assistimos a algumas mudanças: já não estamos muito longe de marcar os 20 anos do grupo alt.poly. Nesses vinte anos, a Usenet viu a queda da sua graça e inclusivamente pode agora ser acedida gratuitamente e sem quaisquer complicações através do Grupos Google. Algumas das características que marcavam tecnicamente os grupos da Usenet estão assim, agora, invalidados. Que problemas ou alterações pode isso gerar? Que implicações tem isso para o funcionamento daquele grupo?

            E, talvez mais importante ainda, como coordenar os elementos que se puderem extrair da ideia de comunidades de prática para os readaptar num sistema reticular? Será que se perde porventura alguma da possibilidade de agir macro-socialmente? Ou é essa uma outra dicotomia que herdámos do passado? Se “the personal is political”, então estamos perante redes que são políticas? Se sim, como? Porquê e para quê? E como podemos pensar a acção macro-social ao lado da micro-social, privada, e mesmo de criação de subjectividades?

Bibliografia e referências

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Bakardjieva, M. (2003). Virtual Togetherness: an Everyday-life Perspective. Media Culture Society, 25(3), 291-313. doi: 10.1177/0163443703025003001.  

Becker, H. S. (1997). Outsiders: Studies in Sociology of Deviance. Simon & Schuster Ltd.  

Cardoso, D. (2009). Poliamor e feminismo: caminhos e teorias cruzadas.

Chua, V., Madej, J., & Wellman, B. (2009). Personal Communities: The World According to Me. Obtido Julho 26, 2009, de http://www.chass.utoronto.ca/~wellman/publications/personal/handbook-community.pdf.

Cox, A. (2005). What are communities of practice? A comparative review of four seminal works. Journal of Information Science, 31(6), 527-540. doi: 10.1177/0165551505057016.  

Damásio, M. J., Costa, C., & Henriques, S. (2009). Construir “Sentido de Comunidade”- as Crianças e a Internet. Acta Digital de Portugal na Pesquisa Europeia Sobre Crianças e a Internet.

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Fernback, J. (2007). Beyond the diluted community concept: a symbolic interactionist perspective on online social relations. New Media Society, 9(1), 49-69. doi: 10.1177/1461444807072417.  

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Hayles, N. K. (1999). How We Became Posthuman: Virtual Bodies in Cybernetics, Literature, and Informatics (1.º ed.). University Of Chicago Press.  

Haythornthwaite, C. [. (2005). Social networks and Internet connectivity effects. Information, Communication and Society, 8, 125-147. doi: 10.1080/13691180500146185.  

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[1] Um bom caso demonstrativo disto mesmo, e que acabou por se tornar em si mesmo um meme, foi o Setembro Eterno da Usenet: http://en.wikipedia.org/wiki/Eternal_September

[2] Sobre a questão de como deveria o inglês “polyamory” ser traduzido, vide o meu post “Traduções, traições e palavras”: http://polyportugal.blogspot.com/2009/07/traducoes-traicoes-e-palavras.html

[3] “Reconhecimento, igualdade e diferença – construções do Sujeito”, trabalho apresentado ao Seminário Alteridades deste Mestrado.

[4] http://dedalusjmmr.net/wiki/index.php?title=Comunidade_Virtual&oldid=883