Amores políticos e políticas situadas

Sessão aceite no Gender Workshop Series VII do Centro de Estudos Sociais - Coimbra

30 de Março de 2017

Resumo

Este workshop tem como objectivo pensar as não-monogamias consensuais (NMCs) enquanto práticas sociais e políticas associadas à cidadania íntima (Plummer, 1994), e portanto com implicações para o activismo e participação cívica em movimentos sociais (Della Porta & Diani, 2006, p. 20) e também para o subactivismo (Bakardjieva, 2009). No entanto, e particularmente nos últimos dez anos, estas questões têm lentamente penetrado a esfera da política formal, como é possível ver pela recente decisão do Supremo Tribunal do Canadá (Rambukkana, 2015), pelo surgimento de “uniões poliafetivas” no Brasil (Sá & Viecili, 2014) e respectivo trabalho académico dentro da área do Direito (Santiago, 2015), bem como por análises que procuram estrategicamente equiparar a ideia de orientação sexual de forma a abranger elementos como o poliamor, de maneira a utilizar a legislação já em vigor (Tweedy, 2011). De resto, tanto na literatura académica (Ashbee, 2007; Aviram, 2008; Black, 2006; Emens, 2004; Ertman, 2005; Myers, 2009), como nas práticas e atitudes registadas junto de activistas (Aviram, 2005; Aviram & Leachman, 2015), se notam paralelismos entre o movimento a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo, e a criação da figura de um ‘casamento poliamoroso’.

Esta abordagem pretende problematizar a monogamia enquanto parte do Círculo Encantado (Rubin, 2007) patriarcal e parte da constituição do Estado capitalista contemporâneo (Engels, 1986), como uma estrutura histórica, económica e política que tem sido repetidamente sujeita a críticas feministas (e.g.: Rosa, 1994), da teoria anarquista queer (e.g.: Heckert, 2010) e pós-colonial. O objectivo será fazer uma leitura crítica à forma como o argumento da igualdade de género é usado para combater a diversidade relacional (Cardoso, 2014), sem porém assumir que as NMCs são intrinsecamente emancipatórias (Wilkinson, 2010), e procurar especular sobre possíveis estratégias políticas futuras.